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Peço licença para mudar de assunto e falar de algo deveras desagradável: a desorganização e desrespeito da área de câmbio do Bradesco.

Isto não é uma campanha difamatória. É apenas o desabafo de minha insatisfação com o sofrível tratamento que recebi da área de câmbio do banco, da qual espero nunca mais precisar.

Quando falo em “sofrível tratamento” não me refiro ao tratamento pessoal, que sempre foi cortês e atencioso e do qual não tenho queixas, e sim ao tratamento corporativo. As severas queixas e críticas expressas abaixo não são contra pessoas, e sim contra procedimentos.

Antes de tecê-las, acho apropriado contar que minha experiência como cliente Bradesco começou ainda na adolescência, quando abri uma poupança na agência situada junto à estação Jabaquara do metrô, em São Paulo. Era a segunda metade da década de 1970. Já naquela época o Bradesco era um banco complicado. As filas eram intermináveis (ainda mais do que são hoje, apesar de toda a informatização do banco), o atendimento ruim e eu costumava dizer que me sentia tratado como gado à espera do abate.

Três décadas depois, o Bradesco torna a causar-me transtornos e irritação. E por motivos incompreensíveis e injustificáveis.

Vamos aos porquês.

Como associado do programa Google AdSense, recebi meu primeiro pagamento do Google em forma de cheque nominal pagável em agência do Citibank em Nova York. Como o Bradesco tem convênio com o Citibank, eles poderiam compensar o cheque para mim — única real vantagem do Bradesco sobre o Itaú, do qual também sou cliente.

Aliás, o Itaú é um bom banco. Caro, mas bom. Sou cliente há uns 20 anos (minha atual conta tem 14) e, nesse período, raras foram as vezes em que tive alguma séria queixa contra ele. Quando eu trabalhava para uma empresa holandesa, meu salário era enviado de lá para cá via ordem de pagamento internacional que o Itaú depositava em minha conta sem qualquer complicação. Tudo muito tranqüilo e prático.

Já o Bradesco…

Voltando ao assunto: fui com o cheque do Google à agência do Bradesco em que tenho conta — e que só preciso manter para receber meus pagamentos como distribuidor Tahitian Noni. Foi aí que recomeçou o show de horror de décadas antes. O problema desta vez não foram filas nem mau atendimento. Foi que a gerência da área de câmbio do banco, em Recife, só compensaria meu cheque se antes soubesse porquê o Google havia me dado o dinheiro.

Muito estranho… Por que isso seria da conta deles? Será que o banco se recusaria a compensar meu cheque se não achasse o motivo bom o bastante?

Sem que ninguém me explicasse o motivo da exigência, respondi tratar-se de pagamento por serviços prestados.

Pois não é que a gerência do câmbio quis então ver meu contrato de prestação de serviço com o Google?

Como eu estava mais interessado em ver meu cheque compensado do que em entender os motivos de tal petulante e atrevida BURROcracia, relevei. Mas tentei explicar que o Google não usa contratos personalizados com o nome de cada um de seus milhões de associados ao redor do mundo, e sim um modelo único válido para todos. Até imprimi e mandei para eles a página de termos e condições de participação no programa (em inglês mesmo), que é o único documento que eles emitem.

Não servia. Eles insitiam que tinha que ser algo onde estivesse escrito meu nome.

Já que a BURROcracia do câmbio do Bradesco queria ver meu nome escrito em algum papel do Google, mostrei-lhes que o próprio cheque, que era nominal, continha a justificativa do pagamento: “Participação no programa Google AdSense”. Então eles acharam aceitável.

Eu mereço… :-(

Satisfeita a BURROcracia do banco, finalmente dignaram-se a processar o cheque — o que, aliás, não era favor nenhum, pois estavam cobrando 30 dólares pelo serviço e ainda levariam 45 dias para concluí-lo.

Passada essa eternidade, o dinheiro chegou e o assunto foi esquecido — até porque não achei que passaria por tal chateação novamente.

Enquanto isso, eu continuava recebendo pelo Itaú outras remessas do exterior sem qualquer dificuldade, depositadas em minha conta em prazo nunca maior que 24 horas. Nenhuma pergunta, nenhum atraso, nenhuma burocracia. Impecável eficiência.

Em dezembro passado fui comunicado que me seria enviada mais uma dessas remessas através de ordem de pagamento internacional. Como as taxas do Bradesco são mais baixas que as do Itaú (que atualmente cobra 50 dólares para depositar essas ordens), tive a amaldiçoada idéia de experimentar fazê-lo pelo Bradesco desta vez na esperança de economizar 20 dólares. Raciocinei que, como o procedimento não envolveria compensação de cheque, talvez a coisa pudesse ser mais fácil. Eu nem sonhava que a decisão comprovaria a veracidade do ditado “o barato sai caro”.

Minha fonte pagadora lá fora enviou a nova remessa para minha conta no Bradesco em 28/12. Todavia, ao contrário de como teria sido no Itaú, o dinheiro não caiu na conta no primeiro dia, nem no segundo, nem no quarto, nem no sexto…

No décimo dia (9/1) resolvi ligar para o banco. A gerente da agência consultou o sistema e descobriu que o dinheiro havia chegado dos EUA no mesmo dia em que foi enviado (28/12), só que ficou retido no departamento de câmbio. E NINGUÉM ME AVISOU!!! Talvez ficasse lá indefinidamente se eu não soubesse de antemão que havia sido enviado.

Foi aí que recomecei a repetir para mim mesmo o bordão que cunhei para definir o que é o Bradesco: Ô BANQUIN NOJENTIN!

Para liberar o dinheiro o câmbio queria, de novo, comprovação documental da razão do envio do dinheiro para mim. Disseram-me que assim teria que ser toda vez que eu recebesse do exterior alguma coisa. E que isso é exigência do Banco Central.

Ah, tá… Querem que eu acredite que o Itaú vem sistematicamente violando alguma norma do BC por anos! É pra rir?

Se arrependimento matasse…

Então lá fui eu ao Bradesco novamente tentar saciar sua sanha BURROcrática. Afinal, o dinheiro já tinha chegado e eu não poderia fazê-lo retornar a fim de que fosse reenviado para o Itaú.

Entrei na agência munido da única prova documental disponível: meu contrato de prestação de serviço com a empresa americana de quem recebo pagamentos ocasionais. Por telefone, a gerência do câmbio confirmou que o referido contrato seria suficiente. Deram-me também um boleto para assinar. Só que, como em toda boa BURROcracia, não bastava apresentar o contrato e assinar um boleto: queriam cópia autenticada de todas as páginas do contrato e com firma reconhecida de minha assinatura, as quais eu obviamente não tinha por não imaginar que isso sequer passaria longe de ser necessário.

Eu disse à gerência do câmbio por telefone que não havia justificativa para tanta BURROcracia e que aquela tinha sido a última vez em que eu fazia uma operação dessas pelo Bradesco, já que o Itaú não faz nenhuma dessas exigências ridículas e a tarifa maior que cobra em muito compensa o aborrecimento que o Bradesco estava me causando.

Minha gerente deu-me toda razão. Ela até disse que meu caso era fichinha perto do de um dono de agência de viagens que fez uma operação com venda de passagens e desceu ao inferno com a BURROcracia do banco para receber o dinheiro que lhe enviaram do exterior. “Acho que o banco não tem interesse em fazer esse tipo de operação, por isso dificulta tanto as coisas para o cliente”, comentou. Ela deve ter razão. E com isso o banquin nojentin demonstra também não ter interesse em manter-me como cliente.

Muito contrariado e perdendo precioso tempo de meu trabalho, peguei o carro, fui ao centro da cidade em busca do cartório onde tenho firma, reconheci-a, tirei as cópias, autentiquei-as e voltei ao banco com elas na esperança de que tudo estivesse resolvido e o dinheiro pudesse finalmente ser liberado depois de absurdos 13 dias.

No dia seguinte fui ver meu extrato. Nada.

Liguei para minha gerente pela trocentésima vez. Ela ficou de verificar e me ligar depois. Ligou. E não acreditei no que ouvi: a gerência do câmbio não aceitou o contrato porque estava em inglês!

No mínimo aqueles gênios da lâmpada supõem que se possa assinar contrato com uma empresa americana redigido em bom português, certo?

Todo o tempo, gasolina, taxas de cartório e aborrecimentos do dia anterior simplesmente haviam sido jogados no lixo. No momento em que me dei conta disso, senti-me o perfeito otário!

Poderia ficar pior? Claro que poderia! Em se tratando do câmbio do Bradesco, sempre pode piorar. Se eu quisesse que o contrato fosse aceito, teria que contratar tradutor juramentado e consularizado para traduzi-lo!!!

Respondi à minha gerente: “Vou hoje mesmo procurar o Procon. Isso já virou palhaçada!”

Ela pediu licença e desligou. Não deu dez minutos e retornou. Contou que argumentou com a gerência do câmbio que o que eu gastaria com esse tradutor juramentado e consularizado seria tanto ou mais do que teria a receber. Então, num possível gesto de piedosa benevolência, os BURROcratas do câmbio do Bradesco consentiram que eu lhes apresentasse um simples e reles recibo.

Se eu fosse um sujeito realmente esquentado, entraria na Justiça contra o banco exigindo reparações, a começar pelo fato de ninguém ter me avisado que o dinheiro havia chegado e por terem me feito de bobo no caso da cópia do contrato.

E o pior é que a novela ainda estava longe de terminar!

Conforme instruções da gerência do câmbio, enviei-lhes o tal recibo por e-mail na manhã de 12/1, sexta-feira. Porém (sempre há um porém quando se trata do câmbio do Bradesco, certo?), até o fim daquele dia o dinheiro ainda não havia sido liberado. Ligação de minha gerente ao câmbio confirmou que receberam meu e-mail, embora nada tenha sido feito a respeito. A solução ficou para a semana seguinte.

Na segunda-feira (15/1), logo cedo, liguei para minha gerente pedindo-lhe sua intercessão em meu favor. Ela prometeu fazer contato com o câmbio e retornar em seguida, mas não retornou. No fim do expediente bancário daquele dia, liguei novamente. Ela disse: “Tentei o dia todo, mas não consegui falar com a gerência do câmbio”. Pedi-lhe o obséquio de passar-me nome e telefone da pessoa responsável para que eu mesmo tentasse o contato. Consegui falar com essa pessoa logo na primeira tentativa.

Não é interessante como foi fácil para mim encontrar essa pessoa ao telefone e para minha gerente não?

A gerente do câmbio disse que eu precisaria mandar-lhe um certo documento. Mas eu já o havia mandado, conforme instruções dela mesma. Foi verificar e constatou que era verdade. Então prometeu liberar o dinheiro no dia seguinte.

Esperei em vão: a promessa não foi cumprida. Por que será que não fiquei surpreso?

Novo interurbano na manhã seguinte. A gerente do câmbio disse que eu deveria voltar à agência para assinar um boleto — mas esse tal boleto já tinha sido assinado e enviado! Aí começou um joguinho de empurra entre a gerente da agência e a do câmbio, uma dizendo que enviou e outra que não recebeu. E eu no meio das duas, como o perfeito boneco joão bobo enquanto meu dinheiro continuava retido.

Não dá vontade de assassinar alguém???

No fim, consegui que as duas madames combinassem algo entre si para que eu não tivesse que esperar mais. Assim, ao final do vigésimo-primeiro dia de aflição e irritação, terminou o sequestro de meu rico e suado dinheirinho pelo Bradesco. Tratei de transferi-lo imediatamente para um banco mais digno e organizado: o Itaú.

Foram três semanas de espera! No Itaú teriam sido 24 horas ou menos, sem perguntas, sem assinaturas, sem nada da estupidez típica da BURROcracia…

Em minha adolescência o Bradesco fazia-me sentir como gado à espera do abate. Desta vez senti-me como o perfeito bobo da côrte a serviço da diversão das majestades do câmbio do Bradesco.

Um último comentário: não sei se é verdade que o Banco Central realmente exige que os bancos peçam — ou pelo menos que o Bradesco peça — provas documentais das razões do recebimento de dinheiro vindo do exterior, mesmo no caso de pequenos valores. Também não sei se a assinatura de boletos ou papéis de qualquer tipo é realmente necessária. Eu tenderia a crer piamente nisso tudo se não tivesse o Itaú para provar-me o contrário. O fato é que preciso de um banco que RESOLVA problemas para mim ao invés de criar problemas novos. Esse, definitivamente, não é o caso do Bradesco.

E viva o Itaú! Bradesco, nunca mais!

[ATUALIZAÇÃO em 3 de março de 2008] — A Tahitian Noni International do Brasil, empresa por causa da qual eu mantinha a conta no Bradesco, decidiu liberar os pagamentos para seus distribudores em qualquer banco do qual sejam clientes. Feliz da vida, informei-lhes que queria receber os meus no Itaú. Desde então, só me lembro da existência do Bradesco em meus pesadelos. Adeus, banquin nojentin!

[ATUALIZAÇÃO em 6 de janeiro de 2009] — Nos primeiros dias do mês recebi uma remessa de valor pouco maior que o limite máximo estipulado pelo Banco Central (US$ 5 mil) para a liberação de ordens de pagamento vindas do exterior sem a exigência de comprovação do motivo da remessa e da relação do destinatário com o remetente. Pela primeira vez, portanto, o Itaú solicitou-me que comparecesse à minha agência munido desse documento antes que me fosse possível receber o dinheiro. Apresentei ao banco o mesmíssmo contrato em inglês que havia sido idioticamente rejeitado pelo Bradesco, sem cópia autenticada nem firma reconhecida. O Itaú passou fax do contrato ao Banco Central. No mesmo dia, o dinheiro foi liberado. Simples assim.

Não sei como andam as coisas no Bradesco depois do deprimente episódio que relatei neste artigo, mas a simplicidade e eficiência com que sou atendido no Itaú não me encorajam a experimentar nova aventura no Bradesco devido a suas taxas mais baixas. Como diz o velho ditado, “quem já foi mordido por jacaré tem medo de lagartixa”. Se você souber como estão as coisas no Bradesco hoje na área de câmbio, sinta-se à vontade para contar nos comentários abaixo.

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