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Não farei comentários sobre o testemunho abaixo. Ele fala por si mesmo. Direi apenas que foi compartilhado recentemente em meu grupo Mórmons do Brasil e que, de tão tocante, achei que merecia ser reproduzido aqui (com autorização da protagonista, irmã Mariana Martinelly, de São Paulo/SP).

Esta experiência aconteceu enquanto estive internada no hospital Emílio Ribas, em São Paulo, onde fiquei por seis longos meses após descobrir um pequeno tumor no cérebro e a epilepsia. Eu tinha dias muito longos e, quando me sentia bem o suficiente para sair do quarto, ia para outros apartamentos visitar e ajudar outros doentes.

Um dia vi chegar ao quarto vizinho uma senhora que estava muito mal. Ela ficou num setor destinado a infectados e isolados, de modo que minha entrada lá era proibida. Mas eu a olhava pelo vidro e me compadecia dela. Estava fraca, não conseguia se alimentar sozinha. O tremor das mãos fazia-a derrubar a comida do talher sobre a roupa e chorava. Fui contar o drama daquela paciente às enfermeiras, mas elas fizeram pouco caso dizendo que eu deveria preocupar-me comigo mesma. Mas eu não podia esquecer do que via nem se quisesse, pois a senhora doente estava no quarto em frente ao meu e o vidro era enorme, de modo que me era possível ver tudo que se passava lá.

Houve um momento em que não aguentei mais testemunhar aquilo e entrei no quarto dela, mesmo sem permissão. Ajudei-a a se alimentar, dei-lhe água e conversei com ela. Descobri que se chamava Ivone, que havia perdido um filho ainda moço em um assalto e por isso caiu em depressão, não se alimentava direito e contraiu um tipo raro de hepatite muito contagiosa. Estava à espera de um transplante de fígado para se salvar, mas dizia não querer viver mais.

Muito comovida, não pude ficar calada. Falei-lhe sobre o Plano de Salvação e ensinei-a que seu filho precisava dela viva para se salvar. Ela chorou muito.

Nisso, ouvimos o ruído dos carinhos de remédios no corredor. Corri para me esconder no banheiro dela. De lá, ouvi os médicos dizerem a ela que estavam tentando passá-la na frente de outros na fila do transplante. Ouvi também quando ela respondeu: “Doutor, por favor, preciso viver só mais um ano e meio, pelo menos, e já me sentirei feliz!” Sem entender, um dos médicos pergunta-lhe o porquê de querer viver só aquele tempo se poderia viver mais. Então ela respondeu assim: “Porque será o suficiente para me salvar e a meu filho também!” Os médicos saíram sem entender nada, achando que ela delirava ou coisa parecida, mas eu sabia porquê ela dissera aquilo: porque eu havia ensinado que era preciso um ano de batismo para ir ao templo e realizar as ordenanças vicárias por seu filho falecido.

Então voltei para junto dela com lágrimas a correr pelo rosto e disse-lhe que a ajudaria a conhecer a Igreja. Todos os dias, eu dava um jeito de burlar a segurança do hospital para entrar lá e ensinar-lhe. Ela devorava tudo que eu dizia como uma leoa faminta.

Até que um dia, muito fraca e debilitada, ela me disse: “Acho que Deus não me quer, pois estou morrendo, minha amiga. Prometa-me que fará tudo isso por mim se eu não conseguir sozinha”. Segurei suas mãos e jurei que faria tudo que pudesse. Então saí dali, porque me sentia a ponto de desfalecer de tanta tristeza e sentimento de impotência.

Ajoelhei-me no chão do quarto e orei por ela. Depois olhei-a à distância e fui dormir.

Naquela mesma noite aconteceu uma correria no quarto dela. Acordei com o barulho e corri. Quando vi que a levavam para o centro cirúrgico, nem dormi mais. Quando amanheceu, soube que ela tivera um sangramento interno e corria risco de não sobreviver até o fim daquele dia. Ela foi trazida de volta ao quarto e ouvi as enfermeiras ligando para os familiares dizendo para que se preparassem para o pior.

Não aguentei. Corri até o telefone público do primeiro andar e liguei para o templo. Pedi que enviassem com urgência um portador do sacerdócio para dar uma benção nela. Como o horário de visitas dela já havia se encerrado, instruí a pessoa que atendeu o telefone a dizer ao irmão que entrasse como se a visita fosse para mim.

Às 2 horas da tarde chegou um senhor de terno azul. Mostrei-lhe a senhora pelo vidro e contei a história toda. Ele se comoveu e disse que queria ir até ela. Fui até o balcão das enfermeiras e apanhei a chave que há muito eu já conhecia bem. Alertei-o para o perigo biológico de entrar ali, mas ele quis entrar assim mesmo. Abri a porta e ele entrou. Fiquei vigiando de fora. Ela estava como morta dentro da redoma de vidro. Vi-o erguendo o vidro do isolamento e ungindo-a com óleo consagrado. Me comovi. Depois, ele se ajoelhou no chão do quarto. Então saiu sem se preocupar em desinfetar-se, como faziam todos que entravam lá. Disse ao sair: “Tenha fé, irmã, ela vai viver, eu sei!” Ele me abençoou também e foi embora.

Passei a tarde toda na expectativa, mas, devido à medicação que eu estava tomando e à noite de insônia, adormeci. Acordei às 6 da tarde e me levantei. Então levei um susto. Dona Ivone estava em pé, do lado de fora de seu caixão de vidro, tentando desligar-se dos aparelhos. “Milagre! Ela está viva e de pé! Corram e vejam, está curada!”, gritei.

Foi um alvoroço. Surgiram médicos nem sei de onde. Entraram em seu quarto como em caravana. Eu não podia ouvir o que diziam, mas vi que ela apontava para mim sem parar e sorria.

Então o médico de plantão veio até mim tirar satisfações. Perguntou-me se eu havia entrado no quarto dela com alguém naquele dia. Neguei. “Mas ela afirma que você levou um anjo que a curou e que você a tem ajudado todos os dias, como explica isso?”, indagou o médico. Foi quando me dei conta de que estávamos em um hospital, que eu estava diante de um cético e que, a seus olhos, eu havia cometido uma falta grave. Não neguei mais e respondi, com todas as letras, que era verdade. Confessei que a ajudei escondido, que chamei o portador do sacerdócio e que ele deu a ela uma bênção de cura. Disse-lhe também que, se ela estava ali, viva, era porque Deus a havia curado por intermédio do Sacerdócio de Melquisedeque.

Ele ficou furioso comigo. Não quis saber de minhas crenças. Para ele, o irmão portador do sacerdócio e eu havíamos cometido um erro terrível ao nos expormos a uma contaminação que poderia disseminar uma epidemia pela cidade. Ele me agarrou pelo braço e me obrigou a ligar para o templo atrás do irmão que deu a bênção em Ivone. Exigiu que fizéssemos exames para identificar nosso nível de contaminação, após o que iria nos trancafiar num daqueles quartos de isolamento.

O detalhe é que os exames deram negativo em nós três: Ivone, o irmão e eu!

Repetiram os exames umas cinco vezes e a deixaram internada em observação por mais uma semana. Nada. Ela estava milagrosamente inteira. Até sua cor amarela havia sumido.

Depois de receber alta, ela sempre ia me visitar no hospital. Dizia que, dali por diante, seria uma atalaia da verdade, um testemunho vivo do poder de Deus na Terra.

Hoje ela está casada de novo, vive em Guarulhos e, pelo que sei, é oficiante do Templo de São Paulo.

Essa história aconteceu em 2001. Em 28 de setembro daquele ano, ela e eu vivenciamos um milagre no hospital Emílio Ribas. Simplesmente não posso esquecer essa experiência.

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