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Posts Tagged “Superpop”

Não lembro exatamente quando entrei no Orkut, nem a convite de quem. Quando me associei a ele, o Orkut ainda era um serviço jovem: foi inaugurado em 24 de janeiro de 2004 pelo programador turco Orkut Büyükkokten, funcionário da Google Inc. que emprestou seu nome ao serviço controlado pela empresa.

(Se você ainda não sabe o que é o Orkut, saiba aqui.)

Na época, o serviço não existia em português e a grande maioria dos associados era de orígem norte-americana, por isso escrevi em inglês todos os dados da primeira versão de meu perfil. Mas já estava em curso a grande invasão de brasileiros que veio a tomar o Orkut de assalto. Essa invasão despertou a ira de certos grupos de usuários americanos (seguramente “aborrecentes” com vento na cabeça), que até chegaram a criar comunidades de fomento ao ódio contra a maciça presença de brasileiros no Orkut. Não adiantou. Hoje, os brasileiros predominam: são 53,94%, contra apenas 15,1% de americanos, segundo dados estatísticos de junho de 2008.

Ainda segundo estatísticas recentes, 61,46% dos inscritos têm entre 18 e 25 anos. Isso pode explicar a fenomenal proliferação de comunidades dedicadas a temas totalmente boçais, como “Nunca andei de zebra”, “Ih, chuveu! Cabelo ecolheu“, “Eu já fui um espermatozóide”, “É pavê ou pacomê?” (e chega por aqui, pois boçalidade pode ser contagiosa). Outras há dedicadas a enaltecer a miséria espiritual humana, como a “Te INCOMODO?? Que peeena!”, em torno da qual deve orbitar gente que pensa que pode atingir o sucesso pisando em todos e achando-se com razão — no momento da redação deste artigo havia nessa comunidade mais de quatro milhões de inscritos, nenhum deles conversando sobre o tópico da comunidade.

Eu estava inscrito em apenas três: a “Todaro Family”, criada por mim para tentar reunir interessados na pesquisa genealógica da família; a “Data Control Maceió”, dedicada a ex-professores e alunos da filial da implodida rede de ensino de informática na qual trabalhei como instrutor; e a “Mormon Thought”, para membros, pesquisadores, opositores e caluniadores da Igreja.

Lamento ter que dizer que esta última teve grande peso em minha decisão de sair do Orkut.

Quando assim decidi, minha lista de amigos somava 130 pessoas, em sua maioria membros da Igreja. Do restante, quase todos eram pessoas com quem eu compartilhava o sobrenome, as quais “fisguei” ao longo do tempo na vã esperança de que se interessassem em contribuir com uma pesquisa genealógica que poderia beneficiar também a eles próprios. Umas poucas pessoas formavam um terceiro grupo sem relação com os outros dois. Sempre procurei manter essa lista o mais enxuta possível, eliminando desconhecidos cujo motivo para tê-los adicionado eu sequer conseguia lembrar — portanto, que não representavam para mim nada além de um número na lista. Prefiro qualidade à quantidade.

Das três comunidades, a única da qual eu ocasionalmente participava era a Mormon Thought. Nunca apreciei nela o fato de ser aberta a difamadores e caluniadores da Igreja. Minha única motivação para permanecer nela era a boa quantidade de grandes conhecedores da doutrina e da história da Igreja, além de outros membros cujas opiniões demonstravam grande afinidade com o Evangelho Restaurado de Jesus Cristo e com os quais eu me identificava. Seu criador é um dos que reúnem ambos os atributos. Ele justifica a abertura da comunidade aos críticos dizendo que o debate ajuda a esclarecer dúvidas de pesquisadores genuínos e crê na validade da prática da argumentação. Ele gosta de debater. Foi com esse intuito que sugeriu ao UOL a criação do fórum “mormonismo” na época em que o UOL hospedava fóruns sobre os mais variados assuntos. Depois que o UOL acabou com eles, criou a comunidade Mormon Thought no Orkut, igualmente aberta ao debate entre membros e não-membros (leia-se críticos). Ele também está inscrito no meu grupo Mórmons do Brasil, mas como as regras do grupo não admitem críticas à Igreja, ele não tem com quem debater e essa deve ser a razão pela qual não participa ativamente do grupo.

No que me diz respeito, a presença de críticos na Mormon Thought não seria problema não fosse o fato de haver gente interessada unicamente em atirar pedras, atitude reprimida apenas quando ultrapassado certo limite que, para mim, era frouxo demais. Eu não tinha prazer em participar dessa comunidade por esse motivo. Não vejo qualquer razão para ser preciso ficar respondendo críticas maliciosas de certos opositores ignorantes, mal informados ou mal intencionados, respostas essas que alimentam mais críticas e assim por diante. Sempre que via isso acontecer, lembrava-me da seguinte passagem do Livro de Mórmon:

Não obstante, houve alguns entre eles que quiseram interrogá-los para ver se, com seus astutos ardis, conseguiriam enredá-los em suas próprias palavras e, assim, obter um testemunho contra eles (Alma 10:13).

Creio ser contra esse tipo de situação que o Senhor nos adverte ao dizer:

Não haverá disputas entre vós, como até agora tem havido; nem haverá disputas entre vós sobre os pontos de minha doutrina, como até agora tem havido. Pois em verdade, em verdade vos digo que aquele que tem o espírito de discórdia não é meu, mas é do diabo, que é o pai da discórdia e leva a cólera ao coração dos homens, para contenderem uns com os outros. Eis que esta não é minha doutrina, levar a cólera ao coração dos homens, uns contra os outros; esta, porém, é minha doutrina: que estas coisas devem cessar. (3º Néfi 11:28-30).

Eis porque nunca me envolvi em debates dessa natureza. Não vejo nisso rigorosamente nenhum proveito. Aquele que tem o “espírito de discórdia” mencionado pelo Senhor não está pronto para abraçar o Evangelho, portanto a discussão é inútil, além de violar o mandamento do Senhor citado acima. Quando estiver pronto, o pesquisador sincero se enquadrará na situação descrita pelo Senhor em D&C 29:7: “meus eleitos ouvem minha voz e não endurecem o coração”, caso em que nenhum debate será necessário.

Quando o momento era oportuno, minha participação na Mormon Thought limitava-se a contar experiências, prestar testemunho e divulgar artigos de meu blog que eu jugava de interesse dos membros fiéis da Igreja lá presentes — e apenas deles.

Foi nessa comunidade que fiquei sabendo da existência de outra, dedicada exclusivamente a ex-membros da Igreja hoje congregados nela apenas para cuspir no prato em que comeram. Curioso para saber o que diziam, eu a visitava com alguma regularidade. Mas, sempre que o fazia, saia dela enojado. A profusão de calúnias e escárnios gratuitos contra tudo que diga respeito à Igreja e todos os envolvidos com ela — líderes, especialmente — é algo impossível de entender. Mentem sem pudor. Salvo raras e honrosas exceções, aqueles apóstatas estão tão afundados no erro que não percebem a sordidez e a falsidade impregnadas nas próprias palavras.

Um exemplo significativo das mentiras a que me refiro é o que disse de mim um ex-membro que hoje se declara ateu: “O Todaro só posta na Mormon Thought quando é pra fazer propaganda do seu blog” — mentira do tipo que aqueles apóstatas adoram espalhar. O ateu em questão sabe que é mentira, ainda assim optou por mentir. Dizer a verdade não dá ibope entre eles.

Outra mentira, do tipo que faz a alegria dos amantes da violação do 9º dos Dez Mandamentos — “Não dirás falso testemunho contra teu próximo” —, foi proferida por alguém que afirmou que meu único intuito ao divulgar meus artigos na Mormon Thought é procurar trabalho (pois neste blog informo que sou webmaster).

O interessante é que nenhum deles me critica “na cara”. Todos o fazem pelas costas. Que cada um julgue por si para saber que nome se dá a esse tipo de atitude.

Há outros exemplos. O ex-missionário que fez de mim alvo da tentativa de assédio moral de que trato no artigo Esses antimórmons são uma graça! foi mais longe. Publicou em seu blog um artigo absolutamente fantasioso sobre minha participação no Superpop de Luciana Gimenez. Ele parece estar obcecado pelo fato de eu não ter usado o programa para armar um grande barraco contra os gays, como queria. Por isso, todo seu texto é carregado de injúrias, calúnias e difamações contra mim. Depois, produziu um vídeo em que lê e interpreta sua criação, que poderia muito bem servir de roteiro de uma comédia pastelão (devo reconhecer que, pelo menos, ele interpreta bem). Como tenho o vídeo do Superpop, seria muito fácil para mim — e humilhante para ele — provar o caráter alucinado de seu texto, se eu quisesse. Mas não vou meter a mão nesse vespeiro por tão pouco. Afinal, que grande dano ele está causando? Rigorosamente nenhum! Como contou o Pres. Gordon B. Hinckley em seu discurso Tardio em irar-se, proferido na Conferência Geral de outubro de 2007:

Certa ocasião, um homem que fora difamado por um jornal “procurou Edward Everett para perguntar o que deveria fazer a respeito. Everett disse: ‘Não faça nada! Metade das pessoas que compraram o jornal jamais viram o artigo. Metade dos que o viram, não leram. Metade dos que o leram, não entenderam. Metade dos que entenderam, não acreditaram. Metade dos que acreditaram não deram a mínima importância’” (Sunny Side of the Street, novembro de 1989; ver também Zig Ziglar, “Staying Up, Up, Up in a Down, Down World” [2000], p. 174).

Tantos de nós fazem um grande estardalhaço por coisas sem importância. Ficamos ofendidos com muita facilidade. Feliz é o homem que pode deixar de lado os comentários ofensivos de outrem e seguir seu caminho.

Estou convencido de que tanta pobreza espiritual não pode ter origem unicamente humana. Eis porque afirmo ser pesada a influência de Satanás naquele meio, ele que é “o pai de todas as mentiras” (Moisés 4:4). É como escrevi em meu artigo Esses antimórmons são uma graça!: “Que apostatem, se quiserem, mas não percam a dignidade! Nada há mais triste que um apóstata moralmente vazio”.

Em visita recente ao grupo deles, encontrei um ex-professor do Instituto de Religião da Igreja, hoje convertido à fé evangélica batista, queixando-se de ter sido vítima de uma injustiça cometida por uma mulher que ele afirmava — sem qualquer prova substancial — ser membro da Igreja. Segundo ele, a mulher o acusou de algo que não fez e o ameaçou de processo judicial. No intuito de ajudá-lo, inscrevi-me na comunidade para dizer-lhe, entre outras coisas, o seguinte: “Se você não fez aquilo de que ela lhe acusa, não tem porquê se preocupar. Deixe que ela se vire tentando provar a acusação, caso seja capaz, e vá dormir tranqüilo”. A partir daí, começamos a trocar algumas mensagens particulares e por algum tempo pareceu-me que eu tinha conquistado uma nova amizade, tanto que me senti à vontade para aceitar seu convite de adição como amigo no Orkut. O fato de eu também ter sido evangélico batista por um breve período de minha adolescência serviu como ponto de afinidade.

Só que, para minha decepção, as afinidades acabaram quando descobri que meu novo amigo era um dos que se empenhava em jogar gasolina na fogueira dos erros daquele grupo de apóstatas. Ele também participa da Mormon Thought, na qual critica abertamente a Igreja e suas práticas e doutrina, às vezes fazendo exatamente o que descreve Amuleque em Alma 10:13. Fiquei triste em vê-lo atirando lama no nome da Igreja, sem qualquer fundamento para tal, em diversos tópicos de ambas as comunidades. Descobri também que ele aplaude e enaltece a obra de meu principal “fã”. Aliás, ele bem que tentou incendiar as coisas entre esse “fã” e eu e, quando viu que eu não entraria na onda dele, exclamou: “Que pena!”. É público e notório que ele se diverte vendo o circo pegar fogo, por isso vive tentando ateá-lo.

Para ser franco, não sei porquê fiquei surpreso. Afinal, onde foi que o conheci? Numa comunidade de apóstatas escarnecedores. O que se poderia esperar dele? Dentre os 130 integrantes de minha lista de amigos, ele era o único que não demonstrava qualquer respeito por minha tão amada religião — que também foi dele, aliás. Por isso, removi-o da lista explicando-lhe que eu não estaria sendo coerente comigo mesmo se permitisse que permanecesse nela. Sua remoção não significava uma declaração de inimizade, mas do fim das afinidades que justificavam sua permanência dentre os 130. Como posso considerar amigo alguém que pisa e cospe em algo que me é tão caro e que demonstra não ter qualquer respeito e consideração pela fé alheia?

Foi somente então que percebi quanto tempo eu estava desperdiçando no Orkut, preocupado em saber o que os detratores diziam da Igreja à qual um dia pertenceram, tanto na comunidade criada para eles quanto naquela na qual acho que não deveriam estar. Que queiram ter um espaço só para eles, tudo bem, mas eu não via e ainda não vejo qualquer necessidade de conviver com a apostasia. A preocupação em saber o que diziam tinha se tornado um vício que precisava ser quebrado. Sair meramente da Mormon Thought não resolveria o problema, pois seu conteúdo é público e a curiosidade acabaria levando-me lá de volta, quando então começaria tudo de novo. A maneira que encontrei de fazê-lo foi semelhante à que se faz no combate de alguns tipos de vício: cortando o mal pela raiz.

Eliminar um vício em alguns casos pode ser um processo longo e penoso. Que o digam os viciados em tabaco e outras drogas, por exemplo. No caso do meu vício da “vigilância” sobre aqueles apóstatas do Orkut, o único pesar que senti pelo corte radical foi a perda de contato com alguns dos 130 que me eram realmente caros — o missionário que me batizou em 1984, a missionária que ensinou minha mulher, alguns membros de minha ala e alguns parentes, dentre outros de quem me orgulhava em ter em minha lista. Fora isso, a transição se deu de modo absolutamente sereno. Acredito que tal serenidade deve demonstrar maturidade emocional e espiritual suficientes para permitir-me pensar sempre em termos de elevação de minha reverência e estatura espiritual. De fato, se há algo que NÃO se pode dizer sobre minha experiência com aqueles apóstatas é que foi edificante e inspiradora. Pelo contrário, foi deprimente e lamentável. Compare-se isso com a experiência de ler a transcrição da mensagem deixada pelo Pres. Thomas S. Monson em Brasília, no último dia 2, na qual transmitiu palavras que, se seguidas, aproximam qualquer criatura de seu Sublime Criador.

O problema com o Orkut não é o Orkut em si, e sim o que se faz nele. O Orkut é meramente um dos incontáveis serviços disponíveis na Internet que podem servir de bênção ou de maldição, dependendo de como são usados. A partir de quando percebi que meu rumo nele começou a ser desviado em direção à maldição, tratei de cortar o mal pela raiz, como disse acima. Essa decisão seguramente não é definitiva nem irrevogável, pois o Orkut pode perfeitamente servir a propósitos dignos, edificantes e inspiradores. É o que pretendo fazer tão logo me sinta desintoxicado do veneno destilado pelos que se empenham em crucificar Cristo mais uma vez.


ATUALIZADO em 29/6:

Eu sabia que meu exílio voluntário não duraria muito. Acabou hoje.

O que me incentivou a voltar foi o convite de Sister Muir, esposa do presidente da Missão Brasil Maceió. O casal está concluíndo seu chamado missionário de três anos e amanhã embarca de volta para seu lar, em Utah, EUA. Ao se despedir de minha mulher e de mim, convidou-nos a nos reencontrarmos no Orkut. Não tive como recusar. Sinto-me honrado pela companhia de pessoas assim dignas, ainda que seja uma companhia virtual.

Sim, o Orkut também serve a propósitos relevantes e inspiradores. É o único uso que pretendo fazer dele daqui por diante.

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Eu pretendia publicar este artigo somente quando estivesse de posse da cópia do vídeo do programa, pois queria editá-lo para divulgar apenas os trechos relevantes de minha participação. Como estou na dependência do envio da cópia que um amigo de São Paulo gravou e não sei quando a receberei dele, resolvi publicar o artigo primeiro e incluir o vídeo depois.

[ATUALIZADO em 8 de setembro: Os vídeos já estão disponíveis no fim do artigo.]

Então, como diz o Castelo Rá-Tim-Bum, “senta que lá vem a história“. :-)

Era 7:20 h da noite do último dia 4 de abril, sexta-feira. Eu estava ocupado com um de meus muitos afazeres no computador quando recebi por e-mail o aviso de que um novo comentário havia sido feito em meu antigo artigo “Diga NÃO ao casamento gay” (posteriormente substituído pelo “Por que sou contra o casamento gay“). O comentário dizia:

Olá, Marcelo. Por favor, entre em contato comigo.

Sobre o remetente, eu só sabia que se chamava Ana Paula. Respondi para o e-mail fornecido dizendo “Eis-me aqui. :-) ”.

Dois dias depois, a surpresa:

Sou do programa Superpop, da Luciana Gimenez. Nesta quinta-feira
(próxima) vamos fazer um programa debate sobre o casamento gay. Poderia
participar? Precisamos de alguém com opinião a respeito... O que acha?
Se puder, me passa seu contato para poder te explicar melhor a pauta.

Respondi confessando-me lisonjeado pelo convite, mas esclarecendo que eu não estava em São Paulo, e sim a milhares de quilômetros de distância, e não acreditava que a produção do programa me mandaria passagens de ida e volta.

E não é que mandou? :-)

Claro que houve uma boa quantidade de negociação antes de meu embarque. Primeiro, Ana Paula pediu para ver fotos minhas. Depois, foram vários telefonemas de lado a lado e até uma espécie de entrevista, na qual queria que eu lhe explicasse “ao vivo” o porquê de minha posição contrária ao casamento gay. Mesmo não sabendo o que mais eu poderia acrescentar além do que escrevi em meu artigo, ela queria ouvir a explanação de minha própria boca. Depois, disse ter achado importante ouvir de mim coisas como “eu acho”, “eu creio”, “para mim” — indicando que eu estava expressando opiniões pessoais e não fazendo uma pregação religiosa, na qual realmente não estavam interessados. É exatamente o que faço em meu artigo e foi o que chamou a atenção deles desde o início.

Ana Paula explicou também que a produção queria realizar um debate de alto nível e garantiu-me que não haveria qualquer “barraco” no programa. Respondi dizendo que eu seria o primeiro a não ir caso houvesse esse risco. Ela achou o nível de minha conversa equiparável ao pretendido para o debate, que seria levantado em função da transmissão ao vivo, dentro do Superpop, de uma cerimônia matrimonial gay. Era intenção da produção fazer-me estar acompanhado de outros opositores do casamento gay, que também foram convidados.

Finalizando, ela disse que levaria suas impressões a meu respeito para a direção do programa e perguntou-me se, na hipótese de o envio das passagens ser aprovado, eu realmente iria.

Até chegar a esse ponto, eu já tinha refletido bastante sobre a possibilidade de aceitar o convite. Achei que seria uma oportunidade de ouro de prestar meu testemunho pessoal do Evangelho de Jesus Cristo e de dizer às pessoas que creio existir um modelo de vida melhor que qualquer coisa oferecida pelo mundo. Eu já tinha feito várias consultas a nosso Pai Celestial em busca de Sua opinião. Tinha até conversado com meus líderes do sacerdócio e com o diretor regional de assuntos públicos da Igreja e de nenhum deles ouvi algo como “não vá”. Posso afirmar, com toda segurança, que me senti em paz em todas as minhas ponderações e orações sobre essa possibilidade. Por essa razão, dei à Ana Paula um sim como resposta.

Enquanto isso, comecei a comentar esses fatos com minha família. Tanto minha mulher quanto minha mãe mostraram-se receosas quanto a possíveis reações adversas vindas da comunidade gay. Nunca tive esse medo, pois sempre tratei o assunto com o respeito que os gays merecem e não via porquê desta vez deveria ser diferente. Mas isso não as tranqüilizou. Temiam que o barraco que me foi garantido que não aconteceria durante o programa acontecesse depois. Temiam até por minha integridade física. Mas nenhuma delas manifestou franca oposição a meu comparecimento ao programa.

Elas não eram as únicas com tais receios. Em uma comunidade do Orkut para membros da Igreja, várias pessoas tentaram me desencorajar. E também não faltaram críticas e deboches vindos de opositores da Igreja. Parte do deboche veio de uma atéia que disse: “Todo circo precisa de um palhaço. Honestamente, acho que o Marcelo foi chamado lá pra fazer esse papel. Ele var ser zoado”. Uma outra pessoa disse: “Vou rachar o bico de tanto rir do quanto ele vai se dar mal”. Parecia consenso entre todos que eu estava para ser massacrado e exposto ao ridículo.

Como foi bom provar que estavam todos errados! ;-)

Dois dias antes da viagem, Ana Paula ligou novamente dizendo que o diretor havia autorizado o envio das passagens. Reafirmei meu compromisso em comparecer ao programa. Eu realmente estava tranqüilo e sentia que não havia nada a temer.

Na noite anterior à viagem, recebi dela o localizador das passagens, com o qual fiz o checkin no site da companhia aérea e imprimi os cartões de embarque — aliás, o sistema é fantástico, pois dispensa o passageiro da obrigatoriedade de entrar na fila do checkin no balcão da empresa no aeroporto e permite que vá direto para a sala de embarque.

Satisfeito, procurei as duas mulheres de minha vida para contar que já estava com os cartões de embarque em mãos. Parece que foi só então que a ficha caiu na cabeça delas. “Ele vai mesmo!”, devem ter pensado. E o que antes era uma mera recomendação para que desistisse da idéia passou a assumir contornos de drama familiar. Insistiam que eu seria ridicularizado, humilhado, escarnecido e que isso poderia ir além de meros ataques verbais. Estavam levando isso a sério e, diante do que lhes pareceu desprezo meu por sua preocupação, sentiram-se ofendidas.

A coisa só piorou na manhã da viagem. Ouvi delas coisas que me deixaram muito triste, todas baseadas na certeza do cumprimento de suas profecias apocalipticas. O mal-estar entre nós foi tamanho que, mesmo já estando com os cartões de embarque em mãos, hotel reservado e com a produção do programa à minha espera, cheguei a considerar a possibilidade de desistir da viagem em prol da paz e da harmonia familiar. Eu detestaria sair em meio àquele mal-estar.

Poucas horas antes do embarque, liguei para a casa de Ana Paula dizendo: “Estou com um problema”. Relatei-lhe todo o ocorrido e perguntei que grande prejuízo haveria se eu não fosse ao programa. Nervosa, respondeu que poderia até perder o emprego se isso acontecesse, pois ela foi a porta-voz de minha palavra e seu diretor confiou nisso. Realmente, seria terrível quebrar minha promessa, obrigando alguém a encarar o risco de ir para o olho da rua por isso. Por outro lado, estava sendo terrível viver aquele drama dentro de casa.

Mas que sinuca!

Embora eu continuasse em paz com a idéia de participar do programa, não tive alternativa senão fazer o que sei que tenho o direito de fazer nesses momentos: pedir socorro a nosso sábio e onisciente Pai Celestial. Como é bom poder contar com a ajuda de um Pai que tudo sabe e tudo pode!

De joelhos, aos pés de minha cama, escancarei-Lhe meu coração e minha angústia. Disse-Lhe que, apesar de tudo, eu ainda queria muito ir, pois acreditava que aquela poderia ser uma oportunidade ímpar de lembrar a uma parte do mundo que a vida não se resume a seguir modismos inconseqüentes. Mesmo assim, eu estava disposto a abrir mão dessa oportunidade se Ele julgasse a viagem inoportuna devido ao problema em casa.

Foi então que, mais uma vez, vi cumprir-se a promessa feita pelo Senhor em D&C 9:8:

Mas eis que eu te digo que deves estudá-lo bem em tua mente; depois me deves perguntar se está certo e, se estiver certo, farei arder dentro de ti o teu peito; portanto sentirás que está certo.

Isso explica porquê criei coragem para enfrentar o ranger de dentes familiar e honrar o compromisso assumido com a Rede TV. Já que, para isso, eu estava criando um problema em casa, minha única saída seria fazer todo possível para que tudo aquilo valesse a pena.

O resultado foi visto ao vivo por milhões de pessoas, inclusive pelas que me aconselharam a desistir e pelas que debocharam de mim. Nenhum dos temores e das profecias apocalípticas se cumpriu. O programa transcorreu na mais perfeita e absoluta tranqüilidade e com um incomum nível de civilidade, conforme a própria Luciana reconheceu no ar três vezes (veja no vídeo).

Para mim, não foi nenhuma surpresa. Primeiro, porque era o que eu sentia. Segundo, porque não fui ao programa munido da intenção de condenar, criticar, desafiar, provocar e criar antagonismos. Ao invés, entrei no estúdio após ter me trancado no banheiro e feito uma última prece humilde ao Senhor pedindo-Lhe serenidade e inspiração, razão pela qual minha disposição era a de construir sobre bases comuns e oferecer um convite à reflexão sobre a possibilidade de haver um modelo de matrimônio melhor, que é o oferecido pelo Senhor e que explico em meu artigo “Por que sou contra o casamento gay“.

Como diz o velho ditado, “quando um não quer, dois não brigam”.

Quando cheguei ao hotel, já de madrugada, senti-me inundado por uma profunda sensação de alegria e satisfação espiritual pelo cumprimento do propósito de fazer com que alguns pelo menos ficassem com uma pulga atrás da orelha. Já mais calma e aliviada, minha mulher ligou para contar que (ao contrário do que havia dito) assistiu o programa e gostou de ver que não aconteceu nada do que temia. Fui dormir naquela noite sentindo-me muito satisfeito.

O resultado foi tão positivo que, na tarde seguinte, Ana Paula me ligou novamente agradecendo muito minha ida ao programa e dizendo que outras oportunidades poderão surgir. Choveram e-mails e telefonemas de congratulações e agradecimentos, inclusive de gente que nem conheço. É claro que houve críticas também, pois é impossível agradar a gregos e troianos — mas, felizmente, a quantidade de críticas não foi sequer próxima de ser considerada significativa e em sua maioria veio de opositores da Igreja.

Minha única ressalva a respeito do programa fica por conta da repetição da pergunta “você aprova o casamento gay?” feita por Luciana aos vários entrevistados participantes da festa do casal gay. Ora, se estavam lá para prestigiar o evento, que se poderia esperar que respondessem? ;-)

 

Curiosidades de bastidores

 

  • Antes de começar o programa, fiquei em uma sala esperando alguém da produção vir conversar comigo. O programa que estava no ar naquele momento era o TV Fama, apresentado pela ex-atriz global Adriana Lessa (foto), pela ex-BBB Íris Stefanelli e por Nelson Rubens. Por ser quinta-feira, às 20:30 h começou o horário político, então os apresentadores tiveram 10 minutos de intervalo. Adriana Lessa passou em frente à sala onde eu estava. Eu quis vê-la de perto quando voltasse, então fiquei à porta. Quando isso aconteceu, pude confirmar algo de que eu desconfiava sempre que a via na tela: ela é muito bonita! E é também mais alta do que parece: de salto, ficou quase da minha altura — e tenho 1,88 m. Como não sou tiete, não a parei para pedir autógrafo ou para tirar foto com ela. Eu simplesmente queria vê-la de perto. Dei-me por satisfeito.
  • Vi Íris Stefanelli também, que foi tomar água no bebedor em frente à sala. Entre as duas, gostei mais de Adriana — até porque é o nome da minha mulher. ;-)
  • Não vi Nelson Rubens. Acho que não perdi nada. :-)
  • Depois do programa, Luciana me perguntou: “O que os mórmons fazem de diferente?” Respondi que eu teria muito mais para contar do que seria possível fazer em cinco minutos (ela estava se preparando para gravar), mas que, se tivesse interesse, poderia começar sua pesquisa solicitando o vídeo do cartão de amizade que saquei do bolso da camisa — o mesmo que distribuí para vários membros da equipe de produção. Lamentei-me por não ter saído de casa com um bolo maior de cartões, eu queria tê-los distribuído a mais gente.
  • Aliás, com aquele tamanho todo, me pergunto por quê Luciana quer usar salto alto. Ficou mais alta que eu! Será que é para meter medo em alguém? ;-)
  • O maquiador me enganou! Ele aplicou um laquê em meu cabelo garantindo que não ficaria duro. Quando saí do programa, parecia que eu estava usando uma peruca de concreto!
  • O estúdio do Superpop é pequeno, mas bem montado. Gostei da produção e da organização do programa — vê-se que não é coisa de amadores. Mas, também, esta é a opinião de um leigo e não sei se quem é da área pensaria o mesmo.
  • A Rede TV não tem instalações nababescas e observa-se um tanto de improviso em várias partes. Mas os profissionais são dedicados e conseguem realizar um bom trabalho.
  • A gerente de produção me contou que muitos são os contrários ao casamento gay (inclusive dentre os próprios gays!!!) e que vários representantes dessa corrente foram convidados a participar do programa junto comigo para expôr suas idéias. Mas fui o ÚNICO que teve a coragem de mostrar a cara (as possíveis razões para isso também estão explicadas no artigo “Por que sou contra o casamento gay“). Ela me parabenizou pela coragem — que não é o adjetivo que explica melhor minha atitude: como contei mais acima, eu estava me sentindo em paz. Essa paz é fruto da segurança advinda da vivência do Evangelho. Como o próprio Senhor disse: “se estiverdes preparados, não temereis” (D&C 38:30, veja também este discurso do Pres. Gordon B. Hinckley).
  • Pude ver que a produção da Rede TV usa tecnologia Apple! :-)
  • Beto Sato — conhecido ativista da causa gay que participou do programa junto comigo — e um amigo dele me acompanharam no carro da emissora que me levou ao hotel após o programa. No caminho, Beto fez-me diversas perguntas interessantes sobre a Igreja e o Evangelho. A que me chamou mais a atenção foi feita depois que expliquei que, na segunda vinda do Salvador Jesus Cristo ao mundo, toda iniqüidade será varrida da Terra e o mundo voltará a ser como era no Jardim do Éden em termos de pureza e retidão. Então ele perguntou: “Se eu, sendo gay, estiver vivendo uma vida honrada e honesta, que acontecerá comigo?” Dei-lhe a única resposta possível: “Não sei. Essa é uma decisão que caberá ao Senhor. Não posso julgar por Ele”. Beto e o amigo também ficaram com um cartão de amizade que lhes dei. A motorista que nos conduzia fez questão de ficar com um também.
  • Ainda sobre o Beto, acho importante dizer que, nos momentos em que tive oportunidade de estar com ele e conversar, senti haver um espírito nobre dentro dele. É uma pessoa bem humorada, agradável, afável e articulada. Despedi-me dele com um abraço fraternal, desejando ter um dia a chance de continuar a conversa. Espero sinceramente que peça o vídeo do cartão que lhe dei.

Para encerrar, quero deixar registrado meu agradecimento à Ana Paula, à gerente de produção Cláudia e à assistente Priscila (com seu interessantíssimo celular-walkie-talkie preto permanentemente pregado ao ouvido), que foram meus anjos da guarda durante minha permanência nas dependências da emissora. Priscila, aquele lanche que você me trouxe estava ótimo! :-)

[ATUALIZAÇÃO em 8 de setembro: veja abaixo os trechos mais relevantes de minha participação no programa.]

Parte 1:

 

Parte 2:

 

Parte 3:

 

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