A assombrosa e fria civilidade holandesa

Referente a setembro de 1998

O primeiro fim de semana do mês foi diferente. Peter, meu chefe inglês, levou-me com seus dois filhos para a Inglaterra, na casa de seus pais, que fica na cidade de Canterbury.

Canterbury é uma encantadora cidade histórica, um dos principais centros da cultura, religião e educação inglesas. Fica a 100 km de Londres e está situada no famoso Jardim da Inglaterra, na parte normalmente mais ensolarada do país — se bem que o sol não apareceu muito enquanto estive lá.

A casa deles localiza-se numa elegantíssima vila campestre chamada Westbere, um local de belas e repousantes paisagens como só a Europa proporciona.

Fui também visitar a Catedral de Canterbury e estou até agora assombrado com a monumental riqueza histórica e cultural daquele lugar, além da própria beleza intrínseca da obra erguida há mais de mil anos. Visitar a catedral é como fazer uma viagem pela história. Reis e imperadores dos quais só sabemos pelos livros estão sepultados lá, como o rei Henrique IV e sua esposa, Joana de Navarro, além de vários outros importantes personagens históricos.

Mas não foi só isso o que me chamou a atenção naqueles dois dias em que fiquei em Canterbury. Foi também o quão bem e à vontade senti-me naquele lugar, em meio àquelas pessoas. Tão bem e tão à vontade como em duas semanas não me senti aqui na Holanda. É notável a diferença de cultura e comportamento entre holandeses e ingleses. Os holandeses de modo geral são fechados e muitas vezes antipáticos, como minhas vizinhas do andar de cima, e não têm muita paciência com estrangeiros. Já os ingleses me davam bom dia quando eu passava na rua e todos aos quais recorri para uma informação ou pedido de ajuda mostraram-se muito solícitos e gentis.

Por isso, senti uma leve tristeza por ter que vir embora. Gostei tanto de Canterbury que queria ficar lá. Peter disse que eu poderia ter ficado, se quisesse, pois posso trabalhar lá. E é aí que entra outra das novas facetas de meu novo trabalho.

Trabalhando para a DLA posso estar em qualquer lugar do mundo. Como nosso trabalho é quase todo montado em torno da Internet e a Internet existe no mundo todo, não faz a menor diferença se estou no Brasil, na Holanda, na Inglaterra ou na Lua. Tenho total liberdade para trabalhar quando e onde quiser, desde que conclua os trabalhos nos prazos determinados. O próprio Peter tem me incentivando a passear pela Europa toda sozinho.

Isso realmente parece tentador. Por outro lado, preocupo-me muito com os fatores dinheiro e segurança. Não creio nem que seja o momento de minha vida de ficar gastando dinheiro com viagens, nem que seja o momento de expor-me a riscos desnecessários. Acho que é o momento de poupar o máximo possível e de me resguardar para o futuro próximo. Se decidir ir a algum lugar sozinho, esse lugar será Amsterdam, pois é aqui perto. Ainda não estou totalmente seguro de como serão as coisas a médio prazo e não gosto de estar despreparado.

Outra idéia que me parece tentadora, mas à qual estou resistindo, é a de morar aqui. Por mais que seja interessante, aqui não é o meu lugar. Na Inglaterra, talvez. Toda a minha vida está lá no Brasil, inclusive a mulher que amo, e ela, principalmente, é o que me faria voltar. Além do mais, meu idioma nativo é o português, a DLA pretende instalar-se no Brasil no próximo ano e não vou querer perder essa festa.

Tenho reclamado muito da falta de amabilidade dos holandeses, especialmente com estrangeiros. Eles não chegam a ser rudes, apenas frios. Indiferença é a palavra que melhor os qualifica.

Isso, contudo, não lhes tira o mérito de serem um povo socialmente evoluído e organizado. Tenho visto tais características nas ruas, andando entre eles. Quem chega em Utrecht vindo de um lugar atrasado, como eu, até estranha tamanha civilidade. Nas ruas, por exemplo, há sinalização para motoristas, para pedestres e até para ciclistas. As faixas exclusivas para ciclistas têm semáforos próprios e mão de direção. Se a polícia flagrar um ciclista andando na contramão, por exemplo, certamente será multado.

As ruas praticamente não têm meio-fio. Nas que têm, esse meio-fio é bem baixo. Isso tem uma razão bem simples: facilitar a circulação de deficientes em cadeiras de rodas. Geralmente o que delimita a área reservada para carros, bicicletas e pedestres é a pintura no chão ou a cor do pavimento. As faixas para ciclistas quase sempre são pintadas de vermelho ou feitas de um tipo de lajota de coloração diferente. Aqui não existem paralelepípedos e, quando a rua não é asfaltada, é calçada com lajotas de cimento, os que as torna bem lisas para carros, bicicletas, patinadores e cadeiras de rodas. Ruas de terra? Coisa de Terceiro Mundo!

Uma das coisas que me chamaram a atenção em toda essa organização foram os semáforos para pedestres. Além de só não existirem nas esquinas pouco movimentadas, eles também emitem um sinal sonoro. Quando está fechado, o sinal sonoro emite bipes a intervalos de um por segundo. Quando aberto, uns dez por segundo. É mais uma forma de chamar a atenção do pedestre distraído para o momento de atravessar a rua.

A civilidade a que me referi não se aplica só aos que enxergam, mas também aos que não enxergam. Vi hoje uma cena que só tinha visto antes na TV: uma moça cega guiada por um cão. Eu estava em minha bicicleta, parado no semáforo que estava vermelho para ciclistas e pedestres, quando a moça e o cão pararam ao meu lado. Ela tirou algo do bolso e, tateando, buscou a boca do animal. Nesse exato momento, por coincidência, o semáforo de pedestres abriu e eles seguiram. Foi aí que entendi a razão da existência do sinal sonoro: não é só para chamar a atenção de transeúntes distraídos, também avisar aos deficientes visuais o momento de atravessar.

Esse fato por si só já me deixou boquiaberto, ou seja, a que grau chegou a civilidade deste povo: a existência de sinalização auditiva para orientar cegos. Aliada a esse fato, porém, a maior surpresa veio do cão: foi ele que puxou a moça quando o sinal abriu! O cão simplesmente havia sido treinado não só para conhecer o caminho como também para prestar atenção ao sinal sonoro. A julgar por isso, deduzi que, além de cega, a moça deveria também ser surda. O cão era seus olhos e ouvidos.

Segurança também não é problema. Privada de ver e ouvir e guiada por seu fiel cão-guia, aquela moça provavelmente sentia-se tão segura nas ruas quanto eu. É difícil ver um único policial. As casas não têm grade nas janelas nem muros. Os carros não têm alarme e os que têm, não usam. Pode-se sair de casa a qualquer hora do dia ou da noite seguro de que nada vai acontecer.

Neste mês começou a esfriar. Não se vê mais o sol, só nuvens, vento, chuva e frio. Já tinha ouvido falar que a Holanda é um lugar deprimente no inverno e agora estou tendo as primeiras amostras disso. Continua belíssimo, sem dúvida, mas deprimente. Em dias como esses, não me resta nada a fazer a não ser trabalhar, comer e dormir. Feliz de mim que posso trabalhar em casa e fazer meus próprios horários.

Essa “felicidade”, contudo, tem um preço: a solidão. Não vejo gente, não interajo com as pessoas, não faço amizades nem conheço ninguém. As palavras que melhor definem como tenho me sentido nestes dias são as que escrevi para Adriana num de meus e-mails:

Estou me sentindo muito só. Sinto falta dos meus pais, do meu canto, das minhas coisas, da minha cama, da minha TV, do meu som, do meu quarto, da minha bagunça, até daquele carro velho que nos levava para onde queríamos ir.

Há uma lágrima escorrendo pelo meu rosto. A saudade dói, aperta o coração, dá um nó na garganta, faz-me sentir impotente, pequeno, insignificante, perdido nesta terra estranha, em meio a pessoas estranhas que falam uma língua impossível de entender.

Já tinha desligado o computador quando a saudade bateu forte dentro do peito. Então o liguei novamente para sentir-me um pouco mais perto de você escrevendo estas palavras.

Vou deitar daqui a pouco sentindo um vazio no peito. Estou aqui sozinho, sentindo sua falta, chorando por dentro por estar longe da mulher maravilhosa que completa minha vida e me faz feliz.

É claro que tais palavras foram escritas num momento de solidão. Não vivo numa caverna, posso sair quando bem entender e conhecer gente. Mas ser sociável num país estrangeiro sem falar o idioma local é complicado. Falando inglês posso ir ao supermercado, ao shopping, ao aeroporto ou pegar um trem para Bonn, na Alemanha, como fiz semana passada, mas não posso contar piadas nem ser comunicativo e sociável, como me é habitual. Embora todo mundo aqui fale inglês, não é o idioma nativo deles, nem o meu. Por mais que não pareça, usar um segundo idioma para tentar socializar é uma barreira para ambos os lados.

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Um comentário em A assombrosa e fria civilidade holandesa

  1. Sol disse:

    Olá,Marcelo
    Vc me fez chorar com o e-mail q vc mandou p sua namorada. A solidão dói,mesmo…Em fevereiro, estarei indo à Hollanda. Especificamente,à Utrecht. Espero que nesse tempo, já esteja menos frio.
    Até lá,Sol

 

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