Alegrete, março de 1986

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Em dia de conferência de zona

Uma jovem adolescente queria ir a uma festa com um amigo que integrava uma turma “da pesada”. Seu pai não permitiu que fosse. A moça garantiu que nada faria de errado, mas seu pai não mudou de idéia. Diante das muitas súplicas e insistências da moça, seu pai resolveu dar-lhe uma lição. Já pronta para a festa, toda arrumada e perfumada, ele pediu-lhe que fosse buscar uma lingüiça no porão da casa, onde a família guardava muita carne defumada. A moça protestou: “Se eu entrar lá, vou sair fedendo a carne defumada!” O pai concluiu: “Da mesma forma, se você for à essa festa, não sairá de lá tão moralmente limpa quanto estava ao entrar”.

Moral da história: não há como deixar de sermos influenciados pelos erros alheios quando convivemos com eles. De um modo ou de outro, acabaremos afetados mesmo quando não somos nós que tomamos as decisões.

Digo isso porque meu atual companheiro tornou-se especialista em quebrar regras. Nenhuma transgressão grave, é verdade, mas, como diz o ditado, “de grão em grão a galinha enche o papo”. Essa situação me revolta, mais ainda porque ele não atende meus pedidos para parar. E assim, como sou obrigado a acompanhá-lo, acabo transgredindo por tabela.

Conversando a respeito com um de nossos líderes de zona (um dos melhores missionários de que se tinha notícia), ouvi dele um conselho de surpreendente sabedoria: “Talvez não seja bom você dizer-lhe diretamente que está quebrando as regras e trabalhando mal, mas há outro modo bem simples de fazer isso: tome para si os erros e culpas dele, pedindo-lhe ajuda para resolvê-los como se as dificuldades fossem suas. Então, automaticamente, ele corrigirá os próprios erros sem perceber”. Não é à toa que um missionário como ele chega a uma liderança de zona e eu não tinha dúvidas de que se tornaria assistente do presidente.

(Comentário posterior) Liderança essa que não cheguei a ter o privilégio de exercer, mas conheço a razão. Observando os líderes que tive na missão e também as autoridades-gerais da Igreja, notei que todos têm uma coisa em comum: o apoio de suas famílias. Sem ele, eu não poderia na missão ir além da condição na qual a terminei: líder de distrito. Altos chamados requerem apoio familiar, do qual, até então, não tinha tido o privilégio de desfrutar.

Meu presidente disse-me que, se meu companheiro continuar como está, será forçado a tomar providências. Temi que estivesse pensando em rebaixá-lo a júnior. Faltando apenas algumas semanas mais de missão, seria terrível para ele terminá-la nessa condição. Para evitar que qualquer providência tenha que ser tomada, o presidente incumbiu-me da tarefa de ajudá-lo a recuperar-se, o que não é tarefa das mais fáceis, já que ele é do tipo que não gosta que lhe digam o que fazer.

Na realidade, ele sofre de um mal que acomete todos os missionários em fim de missão (embora os bons missionários não se deixem abater por isso): a expectativa pelo retorno para casa. Na gíria missionária, diz-se que o missionário está “trunky”, significando que, sentindo que resta pouco a fazer, o missionário trunky amolece o trabalho e faz muito pouco ou nada. Passei a ver em meu companheiro um exemplo de como não proceder quando for minha vez de enfrentar a mesma situação.

Tenho pedido ao Senhor para ser logo promovido a sênior. Acho que será ótimo para mim, pois sinto-me engaiolado com a falta de perspectivas de progresso. Sinto também que meu desejo será realizado em breve.


 
Recebi de casa uma carta que ilustrava bem o pensamento de meus pais em relação a mim e à Igreja. Em termos de demonstração de sentimentos, esta talvez tenha sido a carta mais marcante que já recebi deles, ainda que os sentimentos demonstrados não tenham sido dos mais animadores. Seguem alguns trechos interessantes, primeiro de mamãe:Fiquei chateada por você ter dito a [uma pessoa conhecida] que seu pai e eu achamos que essa Igreja faz lavagem cerebral nos jovens para irem à missão. Significa que você continua colocando-se contra nós e nos atingindo com seus comentários…Você poderia muito bem continuar com sua fé e sua Igreja sem precisar parar com sua vida e com a nossa também. Já parou para pensar que está atrasando a vida de nós todos em dois anos? É bom pensar nisso, pois você não é nenhuma criança e sabe perfeitamente que sem trabalhar e ganhar dinheiro ninguém sobrevive.

Agora o trecho de papai, que, para minha surpresa, escreveu conjugando os verbos na segunda pessoa:

Quero pedir-te que, quando escreveres, procura (se puderes) evitar falar em assuntos relativos à tua missão ou que tentes convencer-nos das vantagens da tua Igreja e do que estás fazendo, porque tua mãe fica nervosa, não dorme à noite, etc., etc., aquilo que já sabes. Neste momento está muitíssimo nervosa por causa de tua saúde e acho que este já é um motivo suficiente para evitar deixá-la mais deprimida do que normalmente já é.

Quando escreveres novamente, procura tranqüilizá-la quanto ao teu problema cardíaco, que na realidade não é uma anomalia digna de muita preocupação, mas, como sabes, ela sempre exagera nas repercussão das coisas e acaba convencendo-se de que estás em situação grave, etc., etc.

Mostrei a carta ao presidente, que aconselhou-me a fazer o que papai pedia.

As preocupações dela em parte tinham fundamento, mas não por causa do coração. Houve um dia neste mês no qual senti-me tão mal que meu companheiro teve que improvisar. Para não perder os (poucos) compromissos marcados, conseguiu ajuda com três rapazes da Igreja: um deles o acompanhou no proselitismo e os outros dois ficaram comigo em casa.

Mas doença alguma segurou-me na cama quando chegou o dia marcado para irmos ver a passagem do cometa Halley. Às zero hora do dia 24 (uma segunda-feira, nosso dia de folga), os outros três missionários de nosso distrito e eu partimos de bicicleta em direção a algum lugar descampado fora da cidade a fim de observar e fotografar o cometa. Envolvidos pela escuridão, pedalamos por duas horas até encontrarmos um ponto onde as luzes da cidade não nos atrapalhassem. Também teríamos que esperar que a lua se pusesse, pois sua luz impediria o registro de qualquer imagem do cometa em filme fotográfico. Havia ainda a preocupação com as nuvens, que teimavam em não sair do lugar. Em humilde oração, pedimos ao Senhor que nos abençoasse em todos os sentidos. O momento ideal de fotografar o cometa chegou quase às cinco da manhã, com o céu limpíssimo, antes que os primeiros raios de sol surgissem no horizonte, o que possibilitou o registro de imagens perfeitas. Quando nos aprontamos para ir embora, as nuvens voltaram. Nós ainda o veríamos uma segunda vez, duas semanas mais tarde, com os mesmos companheiros e acompanhados do bispo da ala. Novamente, as nuvens ameaçavam estragar nossa aventura, mas oramos com humildade e, na hora certa, o céu se limpou. Em compensação, choveu em todo o resto do dia.

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