‘Big love’? Grande coisa!

Sim, os mórmons são alvo, mas não vamos nos preocupar muito com isso

 

Por ORSON SCOTT CARD

Como consequência da Proposição 8 está aberta a temporada de caça aos mórmons. Os produtores da série Big Love da HBO estão na melhor posição para dar um grande tabefe na cara dos mórmons (A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias).

A série joga o foco sobre membros de uma das facções dissidentes que deixaram a igreja mórmon por causa da questão da poligamia. Para entender o que isso significa para os mórmons, vale falar um pouco de história.

Quando o profeta mórmon Wilford Woodruff declarou em 1890 que era da vontade de Deus que os Santos dos Últimos Dias não mais tivessem múltiplas esposas, alguns mórmons prenderam-se ao “Princípio do Casamento Plural” e rejeitaram a autoridade do presidente da Igreja. O episódio foi parecido com o ocorrido quando os protestantes declararam que não mais seguiriam o papa. As seitas poligâmicas estão hoje para os mórmons como os batistas estão para os católicos.

A maneira mais rápida de ser excomungado da igreja mórmon é defendendo o casamento plural.

Mas as seitas poligâmicas ainda promovem a maior parte de seu recrutamento dentre os mórmons, havendo uma luta constante entre a Igreja e os polígamos.

Muitos desses polígamos ainda crêem que é nos templos mórmons que seus casamentos precisam ser solenizados. O templo é um ponto focal na religião deles — mas, se admitirem serem polígamos, não podem entrar.

Por isso, faz sentido do ponto de vista artístico que os episódios de Big Love concentrem-se no esforço deles de entrar no templo. Os episódios refletem a preocupação real de alguns polígamos e é acurado em mostrar a igreja oficial fazendo tudo que pode para mantê-los de fora.

Não se pode entrar nos templos depois que são dedicados, a menos que você seja um membro da Igreja que guarde os mandamentos — e os polígamos flagrantemente não o fazem.

O que o Big Love está fazendo não é nenhuma novidade. Grupos antimórmons têm tentado descrever, pintar ou mostrar versões das cerimônias do templo por muitos anos. Quem quiser saber o que acontece nos templos pode descobrir sem muito esforço. Então por que os mórmons estão zangados com a investida do Big Love na exposição antimórmon?

É ofensivo quando crentes de uma religião expõem os ritos sagrados de outra ao ridículo público. Por isso estamos ofendidos — mas não surpresos.

Os mórmons sempre foram a exceção da política americana de tolerância religiosa. Por toda nossa história na América os mórmons têm sido oprimidos pelo governo, mortos ou expulsos pelas turbas, caluniados e difamados — sempre pelos próprios compatriotas americanos que professam crer na tolerância religiosa.

Portanto, embora não gostemos do que Big Love está fazendo, não estamos fazendo muito a respeito. Aprendemos por observação que protestos e boicotes só aumentam a publicidade e, portanto, a audiência, de tais produções hostis, como o episódio que mostrou o templo no Big Love.

Por isso, o conselho oficial da Igreja para seus membros é: ignorem-no (sabia mais aqui).

Minha resposta favorita veio de Terrance D. Olson, professor da Brigham Young University que faz pesquisas em estudos familiares. Seu ensaio publicado no Meridian Magazine é uma adorável explanação de como a tolerância funciona e como ela eleva a todos. Aqueles que se recusam a respeitar coisas sagradas de outros, diz ele, ferem a si mesmos mais que tudo.

Meu próprio ensaio no MormonTimes.com, publicado pelo Deseret News, de propriedade da Igreja, urge enfaticamente meus irmãos mórmons a não escreverem cartas raivosas, pois a ira nunca persuade ninguém e expressá-la não é uma atitude cristã.

Muitos mórmons estão vendo o episódio do templo de Big Love no contexto da efusão de manifestações de ódio e amargura dos que se opuseram à Proposição 8 mais veementemente. Os mórmons têm sido alvos de boicotes comerciais. Alguns perderam seus empregos porque contribuíram para a campanha que defendeu o casamento.

O resultado é que alguns de nós desejaram agir como os piores de nossos oponentes. Depois que um boicotou o negócio de um amigo, tornou-se um pouco mais difícil não querer convocar um boicote.

Geralmente, embora preferíssemos que todos lidassem pacificamente com as diferenças de opinião, preferimos ser os perseguidos do que os perseguidores. As poucas vezes em nossa história em que tomamos essa iniciativa, os resultados nos envergonharam por gerações. Tolerância funciona melhor.

O que os mórmons mais guardam na memória é isto: somos uma Igreja mundial. Podemos estar percorrendo um caminho acidentado nos EUA neste momento, (…) mas isso não tem nada a ver com a maneira como a Igreja está crescendo no México, Brasil, Nigéria ou Taiwan.

O Big Love é só um entretenimento. Nada do que façam vai diminuir o caráter sagrado do que acontece dentro de nossos templos.

Nosso trabalho primordial é ajudar as pessoas que entram e saem da Igreja a viver uma vida mais como a de Cristo. Às vezes, quando uma profunda questão moral está envolvida, nos envolvemos em ação política. Mas, quando o fazemos, esperamos que outros não gostem disso e levamos algumas pancadas.

Quanto mais nos atacam, mais pessoas nos trazem como aliados e, ocasionalmente, como conversos à nossa fé. Portanto animem-se, irmãos e irmãs!

Orson Scott Card é escritor e crítico. Artigo traduzido e publicado com permissão do autor. Original em inglês aqui.

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[ATUALIZADO em 1 de novembro de 2010] — a HBO, produtora do seriado Big Love, anunciou o fim da série. Mais detalhes aqul.

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3 comentários em ‘Big love’? Grande coisa!

  1. Auricelia disse:

    Oi amei seu blog, seus pontos de vista são bem interessantes e testemunho muito forte, parabens continue assim com este blog, tenho um tambem mas não é tão autentico quanto o seu….estou aprendendo…. vou colocar seu blog na minha lista de links recomendados… bom fim de semana ..

    Um Abraço

  2. julio cesar de oliveira disse:

    Nao esquentem. O espirito de um eleito sabe das verdades mesmo estando em outra denominação ainda…

  3. Cleide disse:

    Estava procurando uma mensagen que todos os Bispos proferem em casamentos, que fala dos dez mandamentos do homem e da mulher, quando me deparei com seu blog, muito bom! Parabéms!
    Só não encontrei o que buscava.
    A propósito, sou de Salvador-Ba, estaca Salvador. Um forte abraço.

 

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