Entrei na escola muito cedo. Meus pais acreditavam que, devido a seus problemas de saúde, quanto antes eu me formasse menos risco correriam de não poderem me ajudar em minha formação. Lembro-me claramente de um fato ocorrido no início do ano de 1973: a professora de artes do Colégio Farroupilha, em Porto Alegre, não acreditou que eu tivesse só seis anos de idade já estando na terceira série do primário.

Não demorou muito para ficar claro que o tiro pretendido por meus pais saiu pela culatra. Sem o apropriado desenvolvimento psicoemocional para acompanhar o adiantamento escolar almejado por eles, sofri três reprovações ao longo de minha vida escolar.

É verdade que não se pode culpar unicamente minha precocidade escolar por isso. Meu pai tinha um emprego que o obrigava a mudar de região do país a cada dois anos. Naquela época — década de 1970 e início da de 1980 — o ensino no Brasil não era padronizado como é hoje: cada região (ou mesmo cada estado) do país determinava seu próprio conteúdo programático para as escolas. Como resultado, a cada dois anos eu era forçado a me adaptar a novos conteúdos, perdendo a sequência que vinha acompanhando na região anterior. Pelo menos duas dessas três reprovações — na quarta série do primeiro grau e no segundo ano do segundo grau — tiveram esse motivo.

Em casa, creio não ter sido adequadamente orientado por meus pais. Não só a cobrança e a pressão por resultados era enorme como também — e talvez por causa disso — não foram poucas as vezes em que fui forçado a fazer as lições de casa e a estudar para provas sob a dolorosa ameaça de cintos, chinelos e palmadas, sem falar das não menos dolorosas feridas causadas por palavras ásperas mais cortantes que as fivelas dos cintos. Assim pressionado, na busca do resultado a qualquer custo acabei me tornando especialista na arte de colar nas provas — e às vezes nem isso era garantia de bons resultados.

Por tudo isso, o ato de estudar, que deveria ser prazeroso e recompensador, acabou se tornando uma das experiências mais frustrantes de minha vida, cujas marcas e consequências carrego até hoje.

Meu primeiro vestibular aconteceu em 1984, quando concorri a uma vaga no curso de Engenharia Elétrica no então Campus II da Universidade Federal da Paraíba, hoje Universidade Federal de Campina Grande. Na época, o curso era avaliado pela Editora Abril como o terceiro melhor de Engenharia Elétrica do país. Para me preparar para ele, além da formação oferecida pelo Colégio Marista de Maceió, fiz também um mês de cursinho pré-vestibular. Meu empenho acabou resultando na conquista de uma vaga dentre os primeiros trinta aprovados.

Ter sido aprovado assim, com tal classificação e logo na primeira tentativa, foi um belo golpe de sorte. O resultado não significou que eu estivesse realmente preparado para os rigores de um curso pesado e exigente como aquele. Eu não tinha base em matemática e física boa o suficiente para acompanhá-lo, nem era organizado e disciplinado para estudar enquanto tentava preencher as lacunas de uma formação escolar deficiente. Tal deficiência logo cobrou seu preço: comecei a perder disciplinas importantes, como Cálculo, Álgebra Vetorial, Álgebra Linear e Física. Isso só acrescentou mais frustração à minha formação.

Quando finalmente resolvi admitir que remava numa canoa furada contra a maré em noite de tempestade, tentei mudar de curso. Fiz outros dois vestibulares. Mas a sorte do primeiro não deu o ar da graça nos outros.

Desmotivado pelos insucessos acadêmicos e tendo que trabalhar para ajudar meus pais, cuja saúde se deteriorava rapidamente, a faculdade foi ficando em segundo plano até que a abandonei por completo.

Por quase duas décadas não tive qualquer contato com nada que dissesse respeito a um curso superior. Por uma série de outros motivos, eu não sabia se algum dia teria esse contato de novo, embora um diploma me fizesse tremenda falta.

Essa falta começou a falar ainda mais alto em tempos recentes, quando minha consciência passou a me cobrar uma atitude.

Em um semáforo recebi um panfleto de uma instituição de ensino superior particular, a Universidade de Uberaba (Uniube), que oferecia cursos superiores à distância. Um dos cursos era Letras, com duração de três anos. Como sempre fui bom em português, inglês e redação e já trabalhava na área, achei que seria a chance ideal de unir o útil ao agradável, ao prático (à distância) e ao rápido (três anos). Fiquei especialmente animado quando soube que o vestibular consistiria de uma simples e reles prova de redação, sem nenhuma das demais disciplinas normais de um vestibular que me exigiriam voltar à sala de aula de um cursinho para tirar o atraso de anos e anos fora da escola. “Tá pra mim!”, pensei.

Não deu outra: passei em segundo lugar.

O problema é que não foram aprovados candidatos em número suficiente para formar uma turma no polo local. O polo também não promoveu suficientemente o curso para que se realizassem outros vestibulares para ele. Passou-se um ano e venceu-se a validade da prova que eu havia feito. Para não perder a vaga tão facilmente conquistada, eu teria que optar por outro curso dentre os poucos disponíveis no polo. Acabei escolhendo Pedagogia por ter um campo de atuação mais amplo que Letras, embora eu realmente quisesse este.

Nesse meio tempo, minha mulher havia começado a me pressionar para que eu tentasse o vestibular para o curso à distância de Letras da Universidade Aberta do Brasil (UAB), no polo Maceió da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). O problema é que esse vestibular seria como qualquer outro, com todas as disciplinas de um vestibular normal. Concorrendo com a garotada que está saindo agora de escolas e cursinhos com tudo fresco na cabeça, eu teria que voltar à sala de aula por pelo menos um ano para me preparar se quisesse fazer uma prova consciente e com alguma chance de aprovação. Mas eu não tinha tempo, nem energia, nem recursos para isso. Se decidisse me aventurar a concorrer nesse novo vestibular, seria só com a cara e a coragem.

Embora eu não tivesse a mínima esperança de aprovação, a idéia de agarrar o touro pelos chifres aos poucos foi deixando de parecer assustadora, por algum motivo. Caso conseguisse o milagre de passar (eu já tinha conseguido um, afinal), poderia economizar os quase 9 mil reais que custaria o curso na Uniube e ainda contaria com o benefício do peso do nome de uma universidade federal no diploma, prestígio de que a Uniube não desfruta. Então decidi inscrever-me.

E aqui começa a parte espiritual da experiência.

A oferta de cursos à distância no polo Maceió da UAB/UFAL incluia licenciaturas em Pedagogia e Física e Bacharelado em Sistemas de Informação. Comecei a preencher o formulário de inscrição determinado a optar por Pedagogia. Mas, por algum motivo, na hora de selecionar o curso desejado senti um nítido e quase palpável desconforto com a idéia de fazer Pedagogia. Eu não sabia porquê, só sabia que senti claramente que deveria deixá-lo de lado.

“Tá, então qual?”, pensei.

Quando bati os olhos em “Sistemas de Informação”, a mesma fonte do desconforto anterior gritou dentro de mim: “É esse!”.

Não entendi bem por que deveria ser Sistemas de Informação, mas esse curso também está dentro de minha área profissional e tinha a vantagem de ofertar 10 vagas mais que os outros. “Então tá, vou nesse”, disse a mim mesmo. Afinal, se era para não passar, não faria diferença. Com uma vaga já garantida na Uniube, a perspectiva da derrota não me incomodava.

E assim foi que, sem ter aberto livro nenhum para ler uma única linha de matéria alguma, fui fazer a prova da UAB/UFAL.

Como não entro numa briga para perder e estava entrando naquela em tremenda desvantagem, tinha que encontrar algo que compensasse. E encontrei. Desde a inscrição até o momento da prova, pedi ao Senhor não que colocasse em minha mente conhecimento que nunca obtive, mas que me ajudasse a raciocinar com clareza e a recuperar dos sombrios subterrâneos de minha embolorada memória algum fiapo do conhecimento adquirido no longínquo passado de minha vida escolar.

Saí do exame sem saber o que pensar sobre o possível resultado. A prova foi mais difícil do que eu esperava, mas não fiquei surpreso, afinal eu não tinha me preparado. Conferindo o gabarito oficial, constatei que, das sessenta questões, acertei apenas trinta e três. Achei que praticamente a metade não seria suficiente para ser classificado. “Valeu a tentativa”, pensei, conformado.

Mas, nos dias seguintes, algo dentro de mim dizia que não perdesse as esperanças. Foi por isso que aguardei a divulgação do resultado oficial com ansiedade.

Quando finalmente saiu, tive que ler meu nome várias vezes para me convencer de que realmente estava entre os classificados. Era difícil acreditar que estivesse.

Mas ao lado dele havia um número “12″ que eu não estava entendendo o que significava. No alto da coluna correspondente ao 12 havia um “Classificação” que não fazia sentido para mim. “Décimo-segundo lugar? Não pode ser!”, pensei.

Mas era. Quando analisei as notas dos demais candidatos, notei que a diferença entre o primeiro colocado e eu era ínfima. Eu realmente tinha conseguido o milagre de ser classificado em décimo-segundo lugar sem ter sequer olhado para a capa de um livro após tantos anos!

Esse feito é ainda mais notável considerando que:

  1. Na época em que tentei aqueles outros dois vestibulares, quando eu estava com todo gás, em ritmo de curso de engenharia e com tudo fresco na cabeça, não obtive o trunfo de agora, em circunstâncias bem mais adversas;
  2. De todos os cursos oferecidos em todos os polos da UAB/UFAL, Sistemas de Informação em Maceió foi o mais concorrido. Segundo soube depois, a concorrência para esse curso foi similar à do curso presencial de Medicina!

Não estou me vangloriando de forma alguma. Estou é reconhecendo a misericórdia e amoroso cuidado do Senhor em me ajudar a conquistar esse trunfo que, a mim, parece assombroso. Eu jamais teria conseguido sem a ajuda Dele. Durante a prova, senti o toque de Seu Espírito em minha mente na precisa identificação das questões possíves de serem respondidas dispensando o conhecimento que não tenho e usando apenas o raciocínio lógico. Mesmo nas que respondi no chute, ainda houve um certo número delas que acertei usando apenas meus sentimentos sobre elas. Enquanto elaborava a redação, em dado momento de concentração no texto fui surpreendido por um aviso Dele carimbado em minha mente: “Você está se desviando do tema”. Então fui reler o que havia escrito e percebi que o desvio se deu porque eu estava sem idéias. Mentalmente pedi ajuda a Ele, que respondeu sugerindo-me uma idéia sobre a qual discorrer, graças ao que a nota de minha redação foi maior até que a do primeiro colocado no concurso.

Mas, afinal, onde entra o curso de Letras da Uniube nessa história?

Não tenho dúvida de que fui inspirado pelo Senhor a me interessar por aquele curso porque era a preparação para uma bênção maior que viria depois. Com uma vaga garantida em uma faculdade, Ele queria despertar-me o sentimento de necessidade de me agarrar à oportunidade com unhas e dentes e ir em frente a qualquer custo. Não fosse por isso, eu talvez não tivesse cedido à pressão de minha mulher para arriscar o vestibular da UAB/UFAL, apesar de achar que falharia — e, mais uma vez, eu realmente teria falhado sem a ajuda Dele.

Se eu disser que apenas a misericórdia do Senhor explica Sua mão guiando meus passos e minhas vitórias, estaria sendo injusto comigo mesmo. É verdade, como eu disse, que eu não teria conseguido sem Ele, mas o fato é que tenho me empenhado em conquistar o direito à Sua ajuda. Como Ele mesmo disse:

Pois assim diz o Senhor: Eu, o Senhor, sou misericordioso e benigno para com aqueles que me temem e deleito-me em honrar aqueles que me servem em retidão e verdade até o fim” (D&C 76:5).

Eis aí a chave para atrair as bênçãos dos céus: obediência. Tenho me dedicado a fazer minha parte para que então o Senhor possa fazer a Dele. Como sempre, constato que o sacrifício vale a pena.

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