Maceió, agosto de 1985

Aconteceram várias coisas importantes nos últimos doze meses. Recebi o sacerdócio maior apenas quarenta e um dias após meu batismo. Poucos dias depois, ocupava o cargo de presidente do grupo de portadores desse sacerdócio em minha unidade (ala). Foi mais ou menos nessa época que surgiu em mim o desejo de servir ao Senhor em uma missão de tempo integral. Então comecei a encaminhar as coisas nesse sentido. Se eu pudesse escolher, escolheria cumprir missão em São Paulo, minha terra natal e cidade adorada. Cheguei até a pedir ao Senhor que me concedesse essa bênção.

No entanto, pouco tempo depois, tive um sonho no qual vi-me abrindo um envelope branco que continha meu chamado como missionário de tempo integral. As primeiras palavras que vi escritas no papel foram “Porto Alegre”. Semanas mais tarde, meu chamado de verdade chegou e com ele a confirmação de que aquele não havia sido somente um sonho, e sim uma revelação — a primeira de muitas. No dia em que o chamado chegou, talvez o Senhor quisesse dar-me um presente muito especial, pois fez o chamado chegar no exato dia em que completei um ano como membro da Igreja: 5 de agosto.

Todavia, até chegar a esse ponto, ninguém havia se lembrado de dar a meus pais a devida importância. Nem eu mesmo. Meus temores quanto às inevitáveis reações contrárias e possíveis tentativas de barrar meus planos missionários fizeram-me ocultar o assunto tanto quanto pude.

Não pude por muito tempo. Em abril, aconteceu no teatro da cidade uma conferência que reuniu todos os membros da Igreja da região. Um dos discursantes da conferência foi a esposa da autoridade eclesiástica máxima da cidade (presidente de estaca). Ao iniciar seu discurso, dirigiu algumas palavras a mim, parabenizando-me por minha preparação para partir em missão. Havia na congregação alunos de música de mamãe, os quais, naturalmente, não sabiam que meus pais nem sonhavam com o que eu planejava fazer. Na primeira oportunidade e em total inocência, procuraram mamãe para felicitá-la pela alegria de ter um filho partindo para o campo missionário.

Não preciso dizer que a notícia abalou meu lar com a violência de um terremoto. As reações de meus pais foram extremadas, passionais, emocionalmente violentas. Impediriam-me à força, se pudessem, e cheguei a pensar que o fariam. Sua revolta não era só pela partida para a missão em si, mas também — e principalmente — porque foram excluídos de meus planos, fazendo-os sentir-se enganados e desprezados. Isso criou neles a pior das impressões sobre a Igreja, que, na verdade, de nada tinha culpa. A culpa foi mesmo toda minha.

Conversando a respeito com um dos meus líderes, o que ouvi dele foi: “Tenha certeza de que seus pais o apoiarão em sua missão. Escreva-lhes sempre, procure fazer por onde o Espírito lhes toque o coração e, no mais, cumpra sua parte. O Espírito se encarregará de lhes testificar que você está no caminho certo. Seus pais verão que, num mundo tão cheio de iniqüidades e abominações, seu filho não poderia estar fazendo melhor coisa”. Quero muito crer que esteja certo.

Comentário posterior: Não estava. Apesar de todos os meus esforços, nada do que disse se cumpriu enquanto viveram. Décadas mais tarde, mamãe ainda amaldiçoava minha missão e a Igreja pelo que julgava uma imperdoável violência contra sua família.

Enquanto eu esperava por esse dia, mamãe fez o que pôde para desviar minha atenção da Igreja e, mais ainda, da missão. Mandou-me fazer análise com uma psicóloga, talvez imaginando que meus parafusos estivessem frouxos e que a terapia ajudaria a fixá-los. Coincidentemente, a psicóloga para a qual fui enviado era justamente a mulher que houvera anunciado no púlpito da conferéncia minha preparação para a missão. Embora tenha sido suficientemente profissional para em nenhum momento ter dito uma única palavra com o intuito de influenciar-me em favor disto ou daquilo, ela era a esposa de um presidente de estaca e, como tal, entendia que a missão é uma bênção sem par na vida de um(a) jovem. Por isso, em nossas sessões, pude falar abertamente de tudo o que pensava e sentia sem medo de ser mal interpretado.

Mas não adiantava falar em bênçãos em casa. Quando papai questionava meus motivos, queria respostas lógicas e racionais. Não há lógica nem racionalidade humana que explique por que um ainda imaturo estudante, nunca saído de casa e ainda “fedendo a leite”, decide postergar sua vida acadêmica, social e familiar para embrenhar-se nos confins do mundo pregando religião. Por não entender, papai não aceitava. Não há respostas lógicas e racionais para tal questão, pois a lógica de sair em missão é uma lógica espiritual, só compreendida quando se está em sintonia e harmonia com Deus, através de Seu Espírito. Enquanto papai não desfrutasse dessa comunhão com o Criador, não entenderia nunca. Nem ele, nem ninguém. E isso é lógico.

Então, se o que lhe sobrava era a lógica humana, foi o que usou para tentar convencer-me a desistir. Fez questão que eu lesse um anúncio de jornal onde uma grande empresa oferecia emprego para engenheiros bem qualificados e com alguns anos de experiência. Deu destaque à parte que falava dos anos de experiência. Tentou convencer-me de que o mercado de trabalho é uma guerra de foices e que, se eu quiser ser bem sucedido nele, não poderia “desperdiçar” dois anos de minha vida numa missão. Falava como se aqueles fossem os dois últimos anos de minha vida ou como se não houvesse nenhuma oportunidade depois deles. Queria a todo custo que eu desistisse da missão ou que pelo menos a adiasse até terminar a faculdade.

Eu resistia. Timidamente, mas resistia. Timidez era um traço marcante de minha personalidade na época, especialmente diante da sedutora eloqüência e do capturador poder de persuasão de papai. Sua argumentação e racionalidade sempre faziam-me sentir como se eu fosse a personificação da insignificância, especialmente numa época em que minha personalidade e maturidade ainda estavam em formação. Apesar disso, uma força interior fazia-me resistir a seu poder de convencimento e ao medo de suas reações, não raro extremadas. Era uma força que não era minha. Por mim mesmo eu jamais conseguiria “enfrentar” meu pai, como fiz, e teria sucumbido diante de seu primeiro olhar de reprovação, como sempre. Essa força só podia vir de fora.

Inconformado diante de minha tímida e inexplicável impassividade, ele tentou uma última cartada: argumentou que, como não havia lógica em minha partida, a missão estava sendo um fator de desagregação da família. Por isso, a partir do momento em que eu entrasse no avião, considerar-se-ia dispensado de suas obrigações em relação à minha educação e formação profissional.

Para ele, a fé incondicional no Senhor era algo abstrato e sem fundamento. Como, então, explicar-lhe?

Mamãe não tinha argumentos lógicos. Suas armas eram emocionais, com as quais conseguia atingir-me de maneira ainda mais perturbadora. Mas, na verdade, era difícil decidir o que era pior. Sua argumentação baseava-se no fato — verídico, diga-se de passagem — de que a saúde deles estava debilitada e, portanto, precisavam de mim por perto, o que deveria ser-me motivo bastante para desistir. Era um argumento arrasador. Uma situação terrível!

No dia em que tivemos essa conversa fiquei muito, muito triste e deprimido. Sentia-me completamente perdido. Meu testemunho não fôra abalado, mas meu coração sangrava. Não suportaria isso sozinho. Tinha que pedir ajuda.

Aproveitando que minha ala ganhara novo bispo, recorri a ele. Ao contrário dos demais líderes que tive até então, aquele foi o primeiro a compreender a gravidade da situação e a demonstrar preocupação. Apesar de já estar com meu chamado em mãos e sendo esperado pelo Centro de Treinamento Missionário em São Paulo e pela sede da missão em Porto Alegre, ele foi visitar meus pais, fazendo valer o ensinamento da Igreja quanto à sagrada importância da família na vida de um filho de Deus — que só não tem mais importância que Ele próprio.

A conversa entre ele, meus pais e eu durou quase quatro horas. Ao final, foi categórico em reconhecer a falha da liderança anterior, a quem originalmente manifestei o desejo de ir para a missão. Deveriam ter-se inteirado melhor de minhas condições e das de minha família. Deveriam também ter me incentivado a encaminhar as coisas com o consentimento dela. Concordamos que tudo teria sido mais fácil se os procedimentos corretos tivessem sido adotados. O que estava sendo feito naquela noite deveria ter acontecido vários meses antes.

O bispo, então, lançou-me o desafio de reconsiderar a decisão de ir para a missão. Eu devia então ponderar muito sobre como as coisas estavam e tomar nova decisão, desta vez à luz da necessária sobriedade e consciência. Foi duro para mim admitir, mas era verdade: até então eu havia agido movido mais pela emoção que pela razão. Conseqüentemente, quando o bispo chamou-me à razão, no fim da conversa, entrei em choque. Sentia-me mais imprestável que um trapo velho.

Em minha cabeça o problema assumiu proporções bem maiores que as que na realidade tinha. Apesar disso, não perdi o Espírito. Ele continuou dando-me a certeza inconfundivelmente plantada e continuamente adubada em meu coração de que eu tinha um Pai Eterno que me amava muito e que achava necessário que eu passasse por tudo aquilo. Ele queria saber até que ponto eu estava realmente desejoso de servir-Lhe. O pavor que me dominou ao fim daquela conversa não durou muito. Tendo parado para refletir, sei que tal experiência trouxe e continuaria trazendo muitos lucros. Então, se eu decidisse ir para a missão, estaria mostrando ao Senhor que o fazia não por estar emocionalmente embalado, mas por ter decidido racionalmente que desejava fazê-lo.

A partir de então, reorganizei meus pensamentos em função dessa necessidade. Orei muito, dizendo ao Senhor que ainda tinha um enorme desejo de servir-Lhe em missão, mas que não me deixasse decidir baseado em impulsos inconseqüentes. Todas as vezes em que pensava nisso e falava com Ele, meus pensamentos eram subitamente envolvidos por um doce sentimento de paz e conforto, como se o Espírito estivesse a dizer-me: “Acalma-te. Está tudo bem”.

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11 comentários em Maceió, agosto de 1985

  1. Tony Souza disse:

    Vc comentou que sua mãe jamais mudou de ideia. E seu pai? Aceitou o Evangelho?

  2. Guilherme disse:

    Sabe, olhando isso o que você escreveu simplesmente me faz sentir cada vez mais vontade de poder servir uma Missão de Tempo Integral. Faz o que? Uns 2 meses e alguns muitos dias que me batizei, 11 dias para completar 3 meses, e por mais que as vezes eu sinta receio, sinta que não irei ser aceito pelos outros, ou até mesmo que em um futuro próximo eu poderia me arrepender, a cada momento que eu ouço, que eu leio um testemunho como esse, eu consigo encontrar mais forças para seguir ao Senhor.
    Olhando para pessoas que se mantem firmes no Evangelho de Jesus Cristo sempre me deixa meio choroso, digamos… Tudo o que eu mais queria é ter um testemunho tão forte quanto o de pessoas como você, para a posterioridade, para a minha missão, para os meus filhos terem alguém para se espelharem e não se perderem do caminho estreito e apertado…

  3. Marcelo Todaro disse:

    O comentário do leitor “matheus” foi rejeitado por ter usado e-mail falso para publicá-lo (matheus-g-mail@hotmail.com).

  4. Jose Alves de Araujo Filho disse:

    Olá BOM DIA
    nao sei porque me deu vontade de procurar na internet ex-missionarios da missao brasil Porto Alegre de 85 a 87, encontrei você, ja encontrei dois dos ex-missionarios, um livro abriu agora minha vida passou em segundos, as experiencia espirituais, fui companheiro na epoca do elder aquino acho que ele e de maceió, caso vc tenha endereço dele ou e-mail mande pra mim.

    seu depoimento me fez reviver um passado adormecido.

  5. Wickson Rodrigues disse:

    Olha sou menbro de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias ja faz dez meses e desde quando entrei na Igreja e ate mesmo antes ja tinha um desejo muito grande de servir missão e isso ta crescendo comigo acada dia e ainda mais quando vejo pessoas indo e voltando da missão.
    E tambem tou enfrentando muitos problemas mais assim mesmo tenho grande desejo de servi ao Senhor.
    Sou muito feliz por ter pessoas assim como você que deu a vida para o seviço missionario, você realmente e um grande homem.

    • Marcelo Todaro disse:

      Wickson,

      Quando fazemos o que Deus manda, estamos sempre certos, não importa o que o mundo pense disso.

      Mantenha-se digno da companhia do Espírito, faça o que Ele lhe disser e não há como as coisas darem errado em sua vida. Nunca.

      Um abraço!

      • jeldson disse:

        tenho duvidas se Deus pode me condena por eu escolher o que e bom ?

        • Marcelo Todaro disse:

          Depende do que é esse “bom”. Muitas vezes achamos que é bom algo que na verdade não é. O parâmetro para discernir o bom do ruim pelo ponto de vista de Deus é o Evangelho de Jesus Cristo. Estude-o e então você saberá se o Senhor aprova ou não sua escolha.

          Um abraço!

  6. Beatriz disse:

    Entendo bem a situação. Apesar de não ter uma força contrária em casa, a favor também não tenho. É complicado, pois tudo poderia ser mais fácil. Mas é aquilo, Ele prepara o caminho e sabe até onde suportamos, então não há o que temer! E concordo plenamente quando disses que não há lógica, não há razão que explique uma missão. Ainda não tive o privilégio de fazer uma, mas (acho) que compreendo.
    Obrigada por dividir suas experiências!
    Abraços! =D

  7. vanna disse:

    fico muito feliz por vc

    que o pai celestial possa te quiar sempre
    continue sempre com a sua cabeça erquida
    e jamais desista de seus objetivos

    sou muita grata por ser membro de a Igreja de jesus cristo dos santos dos ultimos dias

    sou muito feliz hoje em dia e quero que vc seja tbem

 

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