Por que saí do Orkut (e por que já voltei)

Não lembro exatamente quando entrei no Orkut, nem a convite de quem. Quando me associei a ele, o Orkut ainda era um serviço jovem: foi inaugurado em 24 de janeiro de 2004 pelo programador turco Orkut Büyükkokten, funcionário da Google Inc. que emprestou seu nome ao serviço controlado pela empresa.

(Se você ainda não sabe o que é o Orkut, saiba aqui.)

Na época, o serviço não existia em português e a grande maioria dos associados era de orígem norte-americana, por isso escrevi em inglês todos os dados da primeira versão de meu perfil. Mas já estava em curso a grande invasão de brasileiros que veio a tomar o Orkut de assalto. Essa invasão despertou a ira de certos grupos de usuários americanos (seguramente “aborrecentes” com vento na cabeça), que até chegaram a criar comunidades de fomento ao ódio contra a maciça presença de brasileiros no Orkut. Não adiantou. Hoje, os brasileiros predominam: são 53,94%, contra apenas 15,1% de americanos, segundo dados estatísticos de junho de 2008.

Ainda segundo estatísticas recentes, 61,46% dos inscritos têm entre 18 e 25 anos. Isso pode explicar a fenomenal proliferação de comunidades dedicadas a temas totalmente boçais, como “Nunca andei de zebra”, “Ih, chuveu! Cabelo ecolheu“, “Eu já fui um espermatozóide”, “É pavê ou pacomê?” (e chega por aqui, pois boçalidade pode ser contagiosa). Outras há dedicadas a enaltecer a miséria espiritual humana, como a “Te INCOMODO?? Que peeena!”, em torno da qual deve orbitar gente que pensa que pode atingir o sucesso pisando em todos e achando-se com razão — no momento da redação deste artigo havia nessa comunidade mais de quatro milhões de inscritos, nenhum deles conversando sobre o tópico da comunidade.

Eu estava inscrito em apenas três: a “Todaro Family”, criada por mim para tentar reunir interessados na pesquisa genealógica da família; a “Data Control Maceió”, dedicada a ex-professores e alunos da filial da implodida rede de ensino de informática na qual trabalhei como instrutor; e a “Mormon Thought”, para membros, pesquisadores, opositores e caluniadores da Igreja.

Lamento ter que dizer que esta última teve grande peso em minha decisão de sair do Orkut.

Quando assim decidi, minha lista de amigos somava 130 pessoas, em sua maioria membros da Igreja. Do restante, quase todos eram pessoas com quem eu compartilhava o sobrenome, as quais “fisguei” ao longo do tempo na vã esperança de que se interessassem em contribuir com uma pesquisa genealógica que poderia beneficiar também a eles próprios. Umas poucas pessoas formavam um terceiro grupo sem relação com os outros dois. Sempre procurei manter essa lista o mais enxuta possível, eliminando desconhecidos cujo motivo para tê-los adicionado eu sequer conseguia lembrar — portanto, que não representavam para mim nada além de um número na lista. Prefiro qualidade à quantidade.

Das três comunidades, a única da qual eu ocasionalmente participava era a Mormon Thought. Nunca apreciei nela o fato de ser aberta a difamadores e caluniadores da Igreja. Minha única motivação para permanecer nela era a boa quantidade de grandes conhecedores da doutrina e da história da Igreja, além de outros membros cujas opiniões demonstravam grande afinidade com o Evangelho Restaurado de Jesus Cristo e com os quais eu me identificava. Seu criador é um dos que reúnem ambos os atributos. Ele justifica a abertura da comunidade aos críticos dizendo que o debate ajuda a esclarecer dúvidas de pesquisadores genuínos e crê na validade da prática da argumentação. Ele gosta de debater. Foi com esse intuito que sugeriu ao UOL a criação do fórum “mormonismo” na época em que o UOL hospedava fóruns sobre os mais variados assuntos. Depois que o UOL acabou com eles, criou a comunidade Mormon Thought no Orkut, igualmente aberta ao debate entre membros e não-membros (leia-se críticos). Ele também está inscrito no meu grupo Mórmons do Brasil, mas como as regras do grupo não admitem críticas à Igreja, ele não tem com quem debater e essa deve ser a razão pela qual não participa ativamente do grupo.

No que me diz respeito, a presença de críticos na Mormon Thought não seria problema não fosse o fato de haver gente interessada unicamente em atirar pedras, atitude reprimida apenas quando ultrapassado certo limite que, para mim, era frouxo demais. Eu não tinha prazer em participar dessa comunidade por esse motivo. Não vejo qualquer razão para ser preciso ficar respondendo críticas maliciosas de certos opositores ignorantes, mal informados ou mal intencionados, respostas essas que alimentam mais críticas e assim por diante. Sempre que via isso acontecer, lembrava-me da seguinte passagem do Livro de Mórmon:

Não obstante, houve alguns entre eles que quiseram interrogá-los para ver se, com seus astutos ardis, conseguiriam enredá-los em suas próprias palavras e, assim, obter um testemunho contra eles (Alma 10:13).

Creio ser contra esse tipo de situação que o Senhor nos adverte ao dizer:

Não haverá disputas entre vós, como até agora tem havido; nem haverá disputas entre vós sobre os pontos de minha doutrina, como até agora tem havido. Pois em verdade, em verdade vos digo que aquele que tem o espírito de discórdia não é meu, mas é do diabo, que é o pai da discórdia e leva a cólera ao coração dos homens, para contenderem uns com os outros. Eis que esta não é minha doutrina, levar a cólera ao coração dos homens, uns contra os outros; esta, porém, é minha doutrina: que estas coisas devem cessar. (3º Néfi 11:28-30).

Eis porque nunca me envolvi em debates dessa natureza. Não vejo nisso rigorosamente nenhum proveito. Aquele que tem o “espírito de discórdia” mencionado pelo Senhor não está pronto para abraçar o Evangelho, portanto a discussão é inútil, além de violar o mandamento do Senhor citado acima. Quando estiver pronto, o pesquisador sincero se enquadrará na situação descrita pelo Senhor em D&C 29:7: “meus eleitos ouvem minha voz e não endurecem o coração”, caso em que nenhum debate será necessário.

Quando o momento era oportuno, minha participação na Mormon Thought limitava-se a contar experiências, prestar testemunho e divulgar artigos de meu blog que eu jugava de interesse dos membros fiéis da Igreja lá presentes — e apenas deles.

Foi nessa comunidade que fiquei sabendo da existência de outra, dedicada exclusivamente a ex-membros da Igreja hoje congregados nela apenas para cuspir no prato em que comeram. Curioso para saber o que diziam, eu a visitava com alguma regularidade. Mas, sempre que o fazia, saia enojado. A profusão de calúnias e escárnios gratuitos contra tudo que diga respeito à Igreja e todos os envolvidos com ela — líderes, especialmente — é algo impossível de entender. Mentem sem pudor. Salvo raras e honrosas exceções, aqueles apóstatas estão tão afundados no erro que não percebem a sordidez e a falsidade impregnadas nas próprias palavras.

Um exemplo significativo das mentiras a que me refiro é o que disse de mim um ex-membro que hoje se declara ateu: “O Todaro só posta na Mormon Thought quando é pra fazer propaganda do seu blog” — mentira do tipo que aqueles apóstatas adoram espalhar. O ateu em questão sabe que é mentira, ainda assim optou por mentir. Dizer a verdade não dá ibope entre eles.

Outra mentira, do tipo que faz a alegria dos amantes da violação do 9º dos Dez Mandamentos — “Não dirás falso testemunho contra teu próximo” —, foi proferida por alguém que afirmou que meu único intuito ao divulgar meus artigos na Mormon Thought é procurar trabalho (pois neste blog informo que sou webmaster).

O interessante é que nenhum deles me critica “na cara”. Todos o fazem pelas costas. Que cada um julgue por si para saber que nome se dá a esse tipo de atitude.

Há outros exemplos. O ex-missionário que fez de mim alvo da tentativa de assédio moral de que trato no artigo Esses antimórmons são uma graça! foi mais longe. Publicou em seu blog um artigo absolutamente fantasioso sobre minha participação no Superpop de Luciana Gimenez. Ele parece estar obcecado pelo fato de eu não ter usado o programa para armar um grande barraco contra os gays, como queria. Por isso, todo seu texto é carregado de injúrias, calúnias e difamações contra mim. Depois, produziu um vídeo em que lê e interpreta sua criação, que poderia muito bem servir de roteiro de uma comédia pastelão (devo reconhecer que, pelo menos, ele interpreta bem). Como tenho o vídeo do Superpop, seria muito fácil para mim — e humilhante para ele — provar o caráter alucinado de seu texto, se eu quisesse. Mas não vou meter a mão nesse vespeiro por tão pouco. Afinal, que grande dano ele está causando? Rigorosamente nenhum! Como contou o Pres. Gordon B. Hinckley em seu discurso Tardio em irar-se, proferido na Conferência Geral de outubro de 2007:

Certa ocasião, um homem que fora difamado por um jornal “procurou Edward Everett para perguntar o que deveria fazer a respeito. Everett disse: ‘Não faça nada! Metade das pessoas que compraram o jornal jamais viram o artigo. Metade dos que o viram, não leram. Metade dos que o leram, não entenderam. Metade dos que entenderam, não acreditaram. Metade dos que acreditaram não deram a mínima importância'” (Sunny Side of the Street, novembro de 1989; ver também Zig Ziglar, “Staying Up, Up, Up in a Down, Down World” [2000], p. 174).

Tantos de nós fazem um grande estardalhaço por coisas sem importância. Ficamos ofendidos com muita facilidade. Feliz é o homem que pode deixar de lado os comentários ofensivos de outrem e seguir seu caminho.

Estou convencido de que tanta pobreza espiritual não pode ter origem unicamente humana. Eis porque afirmo ser pesada a influência de Satanás naquele meio, ele que é “o pai de todas as mentiras” (Moisés 4:4). É como escrevi em meu artigo Esses antimórmons são uma graça!: “Que apostatem, se quiserem, mas não percam a dignidade! Nada há mais triste que um apóstata moralmente vazio”.

Em visita recente ao grupo deles, encontrei um ex-professor do Instituto de Religião da Igreja, hoje convertido à fé evangélica batista, queixando-se de ter sido vítima de uma injustiça cometida por uma mulher que ele afirmava — sem qualquer prova substancial — ser membro da Igreja. Segundo ele, a mulher o acusou de algo que não fez e o ameaçou de processo judicial. No intuito de ajudá-lo, inscrevi-me na comunidade para dizer-lhe, entre outras coisas, o seguinte: “Se você não fez aquilo de que ela lhe acusa, não tem porquê se preocupar. Deixe que ela se vire tentando provar a acusação, caso seja capaz, e vá dormir tranqüilo”. A partir daí, começamos a trocar algumas mensagens particulares e por algum tempo pareceu-me que eu tinha conquistado uma nova amizade, tanto que me senti à vontade para aceitar seu convite de adição como amigo no Orkut. O fato de eu também ter sido evangélico batista por um breve período de minha adolescência serviu como ponto de afinidade.

Só que, para minha decepção, as afinidades acabaram quando descobri que meu novo amigo era um dos que se empenhava em jogar gasolina na fogueira dos erros daquele grupo de apóstatas. Ele também participa da Mormon Thought, na qual critica abertamente a Igreja e suas práticas e doutrina, às vezes fazendo exatamente o que descreve Amuleque em Alma 10:13. Fiquei triste em vê-lo atirando lama no nome da Igreja, sem qualquer fundamento para tal, em diversos tópicos de ambas as comunidades. Descobri também que ele aplaude e enaltece a obra de meu principal “fã”. Aliás, ele bem que tentou incendiar as coisas entre esse “fã” e eu e, quando viu que eu não entraria na onda dele, exclamou: “Que pena!”. É público e notório que ele se diverte vendo o circo pegar fogo, por isso vive tentando ateá-lo.

Para ser franco, não sei porquê fiquei surpreso. Afinal, onde foi que o conheci? Numa comunidade de apóstatas escarnecedores. O que se poderia esperar dele? Dentre os 130 integrantes de minha lista de amigos, ele era o único que não demonstrava qualquer respeito por minha tão amada religião — que também foi dele, aliás. Por isso, removi-o da lista explicando-lhe que eu não estaria sendo coerente comigo mesmo se permitisse que permanecesse nela. Sua remoção não significava uma declaração de inimizade, mas do fim das afinidades que justificavam sua permanência dentre os 130. Como posso considerar amigo alguém que pisa e cospe em algo que me é tão caro e que demonstra não ter qualquer respeito e consideração pela fé alheia?

Foi somente então que percebi quanto tempo eu estava desperdiçando no Orkut, preocupado em saber o que os detratores diziam da Igreja à qual um dia pertenceram, tanto na comunidade criada para eles quanto naquela na qual acho que não deveriam estar. Que queiram ter um espaço só para eles, tudo bem, mas eu não via e ainda não vejo qualquer necessidade de conviver com a apostasia. A preocupação em saber o que diziam tinha se tornado um vício que precisava ser quebrado. Sair meramente da Mormon Thought não resolveria o problema, pois seu conteúdo é público e a curiosidade acabaria levando-me lá de volta, quando então começaria tudo de novo. A maneira que encontrei de fazê-lo foi semelhante à que se faz no combate de alguns tipos de vício: cortando o mal pela raiz.

Eliminar um vício em alguns casos pode ser um processo longo e penoso. Que o digam os viciados em tabaco e outras drogas, por exemplo. No caso do meu vício da “vigilância” sobre aqueles apóstatas do Orkut, o único pesar que senti pelo corte radical foi a perda de contato com alguns dos 130 que me eram realmente caros — o missionário que me batizou em 1984, a missionária que ensinou minha mulher, alguns membros de minha ala e alguns parentes, dentre outros de quem me orgulhava em ter em minha lista. Fora isso, a transição se deu de modo absolutamente sereno. Acredito que tal serenidade deve demonstrar maturidade emocional e espiritual suficientes para permitir-me pensar sempre em termos de elevação de minha reverência e estatura espiritual. De fato, se há algo que NÃO se pode dizer sobre minha experiência com aqueles apóstatas é que foi edificante e inspiradora. Pelo contrário, foi deprimente e lamentável. Compare-se isso com a experiência de ler a transcrição da mensagem deixada pelo Pres. Thomas S. Monson em Brasília, no último dia 2, na qual transmitiu palavras que, se seguidas, aproximam qualquer criatura de seu Sublime Criador.

O problema com o Orkut não é o Orkut em si, e sim o que se faz nele. O Orkut é meramente um dos incontáveis serviços disponíveis na Internet que podem servir de bênção ou de maldição, dependendo de como são usados. A partir de quando percebi que meu rumo nele começou a ser desviado em direção à maldição, tratei de cortar o mal pela raiz, como disse acima. Essa decisão seguramente não é definitiva nem irrevogável, pois o Orkut pode perfeitamente servir a propósitos dignos, edificantes e inspiradores. É o que pretendo fazer tão logo me sinta desintoxicado do veneno destilado pelos que se empenham em crucificar Cristo mais uma vez.


ATUALIZADO em 29/6:

Eu sabia que meu exílio voluntário não duraria muito. Acabou hoje.

O que me incentivou a voltar foi o convite de Sister Muir, esposa do presidente da Missão Brasil Maceió. O casal está concluindo seu chamado missionário de três anos e amanhã embarca de volta para seu lar, em Utah, EUA. Ao se despedir de minha mulher e de mim, convidou-nos a nos reencontrarmos no Orkut. Não tive como recusar. Sinto-me honrado pela companhia de pessoas assim dignas, ainda que seja uma companhia virtual.

Sim, o Orkut também serve a propósitos relevantes e inspiradores. É o único uso que pretendo fazer dele daqui por diante.

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