Porto Alegre, abril de 1986

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Meu primeiro companheiro júnior e eu

Fui transferido no início do mês, ganhando o novo chamado de sênior que tanto queria. Ganhei também meu primeiro companheiro americano, que está há apenas dois meses na missão e no Brasil.

Logo deu para sentir o peso da responsabilidade de ser sênior. Dirigir o trabalho e tomar decisões não é fácil, especialmente quando o companheiro fala pouco o português. Carga e desgaste são maiores.

Num daqueles dias encontramos na rua um homem bêbado que ameaçava suicidar-se. Parou-nos dizendo já ter conhecido outros missionários e dizendo também outras coisas sem sentido, repetindo o tempo todo que queria morrer. Como não lhe demos muita atenção, começou a gritar e proferir palavrões. Assustado, dei-lhe as costas e chamei meu companheiro para irmos embora.

Mas não fomos muito longe. O mal estar espiritual que senti por isso foi tamanho que não tive escolha senão voltar. O homem estava a nos perseguir, insistindo que queria que fôssemos à sua casa. Acabamos indo.

Lá, desabafou tudo o que queria e, um pouco mais lúcido, disse: “Se não tivesse encontrado vocês, já teria me matado”. Foi quando senti um enorme frio na espinha. Se não tivéssemos voltado para reencontrá-lo, talvez o mundo espiritual contasse agora com mais um habitante. Que estupidez a minha! Ofendi-me porque um bêbado dirigiu-nos algumas palavras grosseiras quando, na realidade, aquele poderia estar sendo o agonizante suplicar de socorro de um espírito que nos reconheceu. No fim, quase sóbrio, prometeu esperar-nos dias depois.

Dias depois, também, meu companheiro caiu doente. Pediu-me que lhe desse uma bênção do sacerdócio. Durante a bênção, senti claramente que as palavras que proferi vinham do Alto. Como meu companheiro é estrangeiro e ainda não entende bem o português, preocupei-me em saber se havia compreendido as palavras da bênção. Respondeu: “Sim, mas o mais importante é que eu as senti”. Seu sentimento enquanto recebia a bênção provavelmente foi igual ao meu enquanto a administrava. Verdadeiramente senti que as palavras não vinham de mim mesmo, pois não sabia de antemão o que dizer. Além disso, eu disse coisas que nem sequer imaginava ser capaz de dizer numa bênção.

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