Porto Alegre, maio de 1986

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Da esq. p/ dir.: meu presidente de missão, eu e
Élder F. Burton Howard

Fiz aniversário neste mês e recebi muitos cumprimentos de pessoas que estamos ensinando e de membros da Igreja, dos quais ganhei um bolo. Mas a lembrança mais marcante foi a de meus próprios pais, cujo telegrama chegou junto com outros dois, um da esposa do presidente da missão e outro de vovó. Apesar da satisfação de saber que havia pessoas interessadas em mim, senti uma ponta de tristeza por estar distante de minha família.

Houve uma conferência com uma autoridade-geral da Igreja, o Élder F. Burton Howard. Ele nos ensinou uma imensidão de coisas relativas ao Livro de Mórmon e de como tirar dele lições práticas para a missão. Vi que não há melhor manual missionário que o Livro de Mórmon. Tomando os exemplos de Lamã, Lemuel, Sam e Néfi, comparou o comportamento de missionários de êxito e de fracasso numa inesquecível lição de conduta que pode ser resumida no seguinte quadro:

Sucesso do missionário Fracasso do missionário
Confiança (1 Néfi 3:7) Dúvida (1 Néfi 3:4-5)
Determinação (1 Néfi 3:15) Desânimo (1 Néfi 3:14)
Receptividade ao Espírito (1 Néfi 4:6) Indisposição (1 Néfi 4:4)
Desejo de entender as coisas da missão (1 Néfi 11:1-3) Rebeldia e desejo de voltar para casa (1Néfi 7:6,7)
Ensinar (1 Néfi 16:1) Deixar de orar (1 Néfi 15:9)
Estudar e ensinar (2 Néfi 11:2) Desobediência (1 Néfi 15:10)
  Não suportar a verdade e as obrigações (1 Néfi 16:1)
  Perder da sensibilidade ao Espírito (1 Néfi 17:45)
  Não ouvir as palavras do Senhor (2 Néfi 5:20)

O exemplo dos protagonistas do Livro de Mórmon é de se admirar. Mas eu queria que Néfi estivesse aqui comigo para orientar-me sobre o que fazer quando se recebe de sua própria mãe uma carta como a que recebi dias atrás. Por ocasião do dia das mães, o presidente da missão mandou para as mães de todos os missionários uma carta de felicitações. Em decorrência, mamãe escreveu-me dizendo:

Recebi uma carta do seu chefe dizendo que “mãe é símbolo de compaixão, perdão, altruísmo, paciência, bondade fraternal, fé e coragem” (bem comportadinha, bem enquadradinha). Não deve questionar, não tem direitos como filha de Deus que é, deve aceitar a violência de ver seu filho arrancado de dentro de sua casa com um sorriso nos lábios e uma palavra de agradecimento…

Um dia Deus fará justiça.

A carta teve outras palavras amarguradas e inconformadas, mas as que transcrevi são suficientes. Sinceramente, não sei como pode apelar tanto para o sentimentalismo a ponto de dizer coisas tão insensatas. Confesso que, diante do que li no restante da carta, tive até vontade de rir, mas não o fiz porque, afinal, por mais enganada que estivesse, era minha mãe. Como é difícil abrir seus olhos e fazê-la despertar de sua cegueira!

Oro muito por minha família. É difícil conviver com tamanha incredulidade. Às vezes sinto-me culpado por alguma coisa, mas, lendo o Livro de Mórmon, encontrei uma luz que creio ter sido mais uma revelação. Em 2 Néfi 33:1 Néfi diz:

E agora eu, Néfi, não posso escrever todas as palavras que foram ensinadas ao meu povo, nem sou tão poderoso no escrever como sou no falar, porque quando um homem fala pelo poder do Espírito Santo, esse poder leva as suas palavras aos corações dos filhos dos homens.

Não pude evitar a comparação entre mim e ele. Geralmente comigo ocorre o contrário: sou mais poderoso no escrever do que no falar. Isso era evidente nas inúmeras cartas que escrevi a meus pais, falando-lhes da Igreja, da missão e do evangelho restaurado.

O versículo 2 encaixou-se como uma luva na situação de meus pais. Não reconheciam em minhas palavras o teor espiritual que continham e as desperdiçavam, tal como fazia o povo de Néfi, segundo suas próprias palavras:

Mas eis que muitos há que endurecem o coração contra o Santo Espírito, de modo que neles não encontra espaço; portanto lançam fora muitas coisas que estão escritas e consideram-nas sem importância.

Era incrível a coincidência. Era exatamente o que meus pais faziam! Endureciam seus corações contra minhas palavras e não recebiam o Espírito. Saber como fazê-los acreditar em mim era um inclemente desafio. A resposta veio na continuação das palavras de Néfi, contidas nos versículos 3 e 4, no trecho que diz:

Mas eu, Néfi, escrevi o que escrevi e considero-o de grande valor, especialmente para o meu povo. Porque oro por eles continuamente durante o dia e meus olhos molham meu travesseiro durante a noite por causa deles; e clamo a meu Deus com fé e sei que ele ouvirá o meu clamor.

E sei que o Senhor Deus consagrará minhas orações para o bem de meu povo. E as palavras que escrevi em fraqueza tornar-se-ão fortes para eles; porque os persuadem a fazer o bem; fazem com que saibam a respeito de seus pais; e falam de Jesus, persuadindo-os a acreditar nele e a perseverar até o fim, que é vida eterna.

Senti-me muito tocado ao ver o que o Senhor poderá fazer a eles com minhas palavras. Ponderando ainda mais, vi que, sem perceber, fiz e continuo fazendo o que Néfi fez. Foi então que, forte como um trovão e claro como a luz do sol, houve um estalo em minha mente que trouxe a resposta que por tanto tempo esperei. Não perdi tempo: saquei de um pequeno rascunho e anotei:

A história de Néfi e seus irmãos ilustram perfeitamente o que ocorre entre mim e meus pais atualmente. Portanto, para ser bem sucedido como Néfi, basta fazer o que ele fez!

E, para fazer o que ele fez, só preciso conhecer bem sua história, que está no Livro de Mórmon. “E assim vemos que por meio de pequenas coisas o Senhor pode realizar grandes coisas” (1 Néfi 16:27).

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