Santana do Livramento, maio de 1987

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A linha divisória entre Brasil e Uruguai corta a praça ao meio. Do lado de lá é Rivera, no Uruguai.

O mês começou com a substituição de uma das duplas de sísteres por uma de élderes. É pena, já havia me habituado ao trabalho delas. Pelo que observei das que passaram por meu distrito, elas podem não ter tanta disposição para horas de proselitismo e número de palestras, mas sabem acompanhar melhor suas famílias do que a maioria dos élderes que conheço. Isso certamente se deve ao fato de serem mulheres. Elas são mais sensíveis às necessidades das pessoas, mas talvez o sacerdócio esteja sendo necessário na área que era delas. Vamos esperar para ver.

Neste mês houve uma conferência de zona, na qual, em entrevista, o presidente fez o seguinte comentário a meu respeito: “Quero dizer que é bem aparente o seu progresso. Estou muito feliz por ver que tem desenvolvido cada vez mais seu dom de ser obediente, paciente e o de aceitar todas as coisas como são. Você já veio com isso de casa, mas aqui desenvolveu ainda mais esse dom. É claro que você tem suas próprias idéias e opiniões, mas aceita as determinações sem capitular. Continue firme, fazendo o grande trabalho que vem fazendo”.

Ser obediente é, antes de tudo, um prazer. Sinto uma grata satisfação em mostrar que sou capaz de fazer o que me é requerido, e fazer bem feito. Nunca tive problemas quanto a isso e sei que grande parte do meu sucesso na missão se deve à minha obediência aos mandamentos do Senhor e às regras da missão.

Tem se tornado mais e mais freqüente minha ansiedade por saber o que vai acontecer quando for desobrigado do chamado de missionário de tempo integral. Esta já deve ser a terceira vez em que toco nesse assunto neste diário. A preocupação se deve por ter consciência de que, mesmo não mais estando no campo missionário, minha verdadeira missão nesta vida ainda estará longe de terminar. Na verdade, o campo missionário terá apenas mudado de lugar e de perspectiva. Estará focalizado em todos os lugares por onde andar, mas, principalmente, dentro dos metros quadrados onde habito, chamado lar. Será a segunda missão da minha vida e será uma batalha cujas perspectivas não são nada animadoras. Ainda hoje, andando na rua, fiquei imaginando como seria maravilhoso levar meus pais ao templo para ser selado a eles, gozando de todas as bênçãos e privilégios daquelas famílias que obtiveram a promessa de uma associação eterna.

Quando freqüento as reuniões sacramentais em companhia dos visitantes que levamos para conhecer a Igreja, peço ao Senhor, com todas as forças de meu coração, que abençoe aquelas almas especiais que ali se encontram. Meu peito se enche de um suave e penetrante calor — porque as amo. Dentro de mim há um forte e sincero desejo de vê-las comigo no reino do Pai. Às vezes, porém, não consigo segurar as lágrimas quando penso na hipótese de não ter minha própria família junto comigo.

Mesmo se em vida não amolecerem seus corações e não aceitarem o Evangelho restaurado, um juramento já fiz para mim mesmo: batizá-los e selá-los a mim vicariamente, depois de mortos. Não tenho a menor dúvida de que, depois que o véu do esquecimento for desfeito, eles reconhecerão a verdade em tudo o que lhes disse até hoje e quererão partilhar dessa felicidade.

Felicidade que vários de nossos pesquisadores já sentiram mesmo no comecinho de nossos ensinamentos. Tendo ouvido apenas a primeira palestra, sentiram o Espírito de modo tão forte que, voluntariamente, desejaram ser batizados. Por que, ó Deus, com minha família não pode ser assim também?


 
No fim do mês tivemos a alegria de batizar uma alma especial, que vale por dez. É um dos eleitos a quem ajudei a conhecer o evangelho, edificar sua fé em Cristo, arrepender-se de seus pecados, decidir-se pelo batismo e receber o dom do Espírito Santo. Este certamente será um eleito entre os eleitos, através de quem o Senhor fará grandes obras em seu reino.

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O homem especial que o Senhor nos deu em resposta a um pedido de socorro

A história da conversão deste homem já começou especial. Foi num dia que estava sendo particularmente difícil para meu companheiro e eu, com vários compromissos sendo cancelados e contatos infrutíferos. Estávamos sentados no muro da casa de um de nossos pesquisadores, desconsolados após uma tentativa frustrada de achá-lo em casa. Meu companheiro me fitou por alguns momentos de embaraçoso silêncio e perguntou: “Que faremos?” “Não sei”, resmunguei. Mergulhamos em novo e desconcertante silêncio, cada qual a imaginar como fazer o que tinha que ser feito.

Foi então que ele sugeriu: “Que tal orarmos aqui mesmo e em seguida prosseguir com os contatos?” Era nossa única (e melhor) alternativa. Afinal, fazer contatos guiados pelo Espírito é bem melhor do que sem Ele. Então, no meio da rua mesmo, curvamos nossas cabeças e encaminhamos ao Senhor nosso pedido de socorro.

Saímos, portanto, a bater em portas novamente. Bater em portas não é o problema. É muito fácil entrar nas casas das pessoas, pois o gaúcho desta região é cordial e hospitaleiro, ainda que duro de entendimento e muito apegado às suas raízes culturais e religiosas. Já estamos fartos de entrar nas casas e só encontrar campo verde, por isso perdemos o ânimo em fazer contatos porta a porta.

Aproximava-se a hora do almoço e do fim do jejum de zona. Passávamos por um ponto de ônibus onde um homem esperava sua condução. Ao nos ver, nos parou e perguntou: “São brasileiros?” Era ele. “Quando os vi, senti uma força misteriosa me compelindo a falar com vocês”, conta ele hoje. Dali por diante, nossos encontros seriam marcados por forte presença do Espírito. O irmão testifica que O sentia em todas as nossas palavras. Seu progresso foi espantosamente rápido e a facilidade com que assimila as coisas que precisa aprender até hoje me impressiona. Quando ainda era visitante, lembro bem de como gostou da conferência de estaca que assistiu e de como se identificou com tudo e com todos.

A experiência dele não foi marcante só em sua própria vida, mas na minha também. Vivenciei uma demonstração da divina providência, oferecida num momento em que, quando tudo parecia perdido, com fé e humildade pedimos ajuda ao Senhor. E Ele nos deu aquele homem. Terei ainda muito o que meditar sobre isso. É bem verdadeiro aquele pensamento que me foi dito por um missionário antes de minha partida para a missão e que já citei nestas páginas: “Ore como se tudo dependesse de Deus e trabalhe como se tudo dependesse de você”.

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6 comentários em Santana do Livramento, maio de 1987

  1. João Paulo disse:

    Gostei do seu blog acho que todos os membros da igreja passar por provações, mais com e muito importante essa parte da sua missão,a sua oração com o seu companheiro ao Pai Celestial, como membro novo e muito curioso gostos de ler e tenho certeza que a Igreja de Jesus Cristo foi realmente restaurada e que os Profetas da igreja e todos os membros do apostolado são realmentes homens de Deus e que tenho um testemunho que realmente sei que o Livro de Mormon é Veradeiro e que Jesus vive, a oração é uma das maiores e de grande importancia para podemos seguir o caminho da vida tive quase o mesmo testemunho sobre a igreja mas hoje espero que um dia poder contar como eu conhecir a igreja e como me converti eu também tive algumas dificudades principalmente por ser casado com um esposa que tem familia evangelica e imagina como tá a minha situação atual mais sei que quando o Pai Celestial te chama e porque tem muitas benção exemplo foi ao entra para igreja em menos de três meses de membro se tornar portador do sarcedocio maior foi para mim uma grande responsabilidade e com quatro receber a noticia que vai fazer um templo perto de mim isso foi como para mim um grande benção pois sei que e muito importante o templo e todos que são da igreja onde eu moro que tem todos os ano que fazer um caravana para ir ao templo de recife e os pioneiros que antes tinha que viajar 3dias e 3 noite para São Paulo imagina só agora que está proximo a construção e que as benção da orações dos pioneiros foi atendidas pela dificudade de ir para o templo falo da dificudade fianaceira que para muito que são membros que não tem muito dinheiro para ir nas caravana ficar só em casa e na capelas e no maximo nas estacas isso que são verdadeiro e luta para que cada dia as pessoas conheça a verdadeira igreja

  2. Luana disse:

    nossa .legal um blog da igreja..

  3. Leonardo Leisina Vieira disse:

    Elder, esse homem tem uma filha que se chama Vanessa, muito bonita porsinal e tive a benção de conhecê-ela e me casar com ela no templo de Porto Alegre e temos duas lindas meninas. Estamos firmes na fé. Seu trabalho ainda dá frutos até hoje!! Que o Senhor possa continuar a te abençoar!!!

    • Marcelo Todaro disse:

      Oi, Leonardo.

      Obrigado pelo comentário e pela atualização de notícias. Você é prova de que nosso Pai Celestial intercedeu por nós em nosso trabalho missionário. Ele é um Deus de milagres, não é? Aconteceu na vida de vocês e na minha.

      É a ele que devemos agradecer eternamente por todas Suas muitas bênçãos e demonstrações de amor e misericórdia.

      Um abraço!

 

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