Santana do Livramento, março de 1987

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Meu novo companheiro e um de nossos pesquisadores

O mês começou com a transferência de meu companheiro para São Borja e a chegada de um novo, meu segundo companheiro americano na missão. Ele teve em sua vida um privilégio que pretendo proporcionar aos meus filhos: nascer e ser criado na Igreja.

Assim, ainda desconhecedor de muitas das mazelas espirituais armadas pelos homens do lado de baixo do Equador, teve contato pela primeira vez com um homem que, mesmo não sendo evangélico, se diz pastor espiritualista. Fomos convidados por ele para comparecer a uma de suas atividades. Até agora me divirto quando recordo a expressão de pasmo estampada no rosto de meu novo companheiro ao presenciar as cenas em que aquele homem usava o nome do Salvador para fazer “curas milagrosas pelo poder de Jesus” e sendo aplaudido “em nome de Jesus” e “para Jesus”, com todos os presentes pondo-se a aplaudir Alguém de Quem não têm o menor conhecimento. De vez em quando meu companheiro sussurrava em meu ouvido, inconformado: “Aplausos para Jesus???” Nunca na vida tinha visto tal aberração, e seu espanto me divertia.

O que não me diverte nem um pouco são as cartas que recebo de casa. Embora acalentasse em meu íntimo alguma esperança de que minha última carta produzisse algum efeito em seu coração petrificado, a reação negativa não me surpreendeu, infelizmente. Continuam inflexíveis e intransigentes em sua posição contrária à Igreja e aos rumos que decidi para minha vida, ponto final. Às vezes penso que fazem isso por pirraça, pois não consigo entender tamanha disposição em não querer desenvolver um mínimo de boa vontade para tentar entender meu ponto de vista. Talvez porque achem que faço o mesmo. Como disse o presidente, “toda paciência é pouca”. É também como escrevi anteriormente: as alegrias advindas de ser membro da Igreja e, mais ainda, de servir em missão, só se pode entender com o testemunho do Espírito, sem o qual tudo isto parece vão.

Minha resposta para eles veio a galope, e aqui vão alguns trechos:

Gostaria de lhes pedir que não se apegassem apenas ao lado racional da questão, embora saiba de antemão que tal idéia lhes parece descabida. Há momentos, como os em que vocês dizem que “impingi uma filosofia”, “você agora pensa como um mórmon, e não como um Todaro”, “pense sem parcimônia”, “reflita”, “veja se não tenho razão”, etc., que chego a imaginar se é realmente verdade que vocês crêem em Deus. Estão tão mergulhados em pensamentos, reflexões, razões, conclusões e raciocínios que não dão espaço para Deus falar. Ele não é mudo, e tem boca! Não somos filhos de uma entidade incomunicável e inatingível, sem corpo, partes ou paixões, e que não gosta de expressar Suas opiniões a respeito de nossos problemas, ou que esteja ocupado demais para nos dar atenção. Não Lhe tirem o direito de Se expressar! Precisam considerar a hipótese de que seus pensamentos, reflexões, razões, conclusões e raciocínios podem não ser os mesmos Dele. Se têm dúvidas quanto a isso, vejam o que Ele mesmo disse na Bíblia em que vocês dizem crer:

“Porque meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor. Porque, assim como os céus são mais altos que a terra, assim são meus caminhos mais altos que seus caminhos, e os meus pensamentos mais altos que os vossos pensamentos.” (Isaías 55:8-9)

Quantas vezes já lhes aconselhei a dobrarem seus joelhos e rogarem-Lhe que lhes confirme a verdade? Não pensem que Ele não responderá uma dúvida sincera, feita através de uma oração humilde e fervorosa. Também não esperem que Ele diga somente o que vocês querem ouvir, ou que suas opiniões são as mesmas Dele e que, por isso, não é necessário perguntar nada. O que há de errado em ser humilde? É tão difícil entender que Ele sabe mais que nós e que tem poder para nos fazer compreender as coisas segundo Sua maneira de ver? Por que não podemos buscar Nele compreensão do que não compreendemos? Se não entendem como posso permanecer nisso que vocês qualificam como estado de insensível estupor, já que minhas razões lhes parecem loucura, que mal há em procurá-Lo? Perderiam algo se tentassem?

Quando finalmente o fizerem, aprenderão que aquele velho ditado que diz que “Deus escreve certo por linhas tortas” é verdadeiro. Se formos estudar muitos dos atos do Senhor, vamos descobrir que Ele age através de métodos que freqüentemente não conhecemos. Nenhum de nós evoluiu o bastante para compreendê-los e esclarecê-los. Negar a realidade de tais métodos só porque não os compreendemos é o mesmo que tentarmos ser oniscientes, já que o que não podemos entender e explicar não pode existir e que, portanto, somos capazes de compreender tudo o que existe e explicar os meios de ação do Senhor, fazendo-nos iguais a Ele. Está certo isso? A verdade de tudo o que lhes tenho dito é tão plenamente apoiada pelas evidências quanto muitos conhecidos fatos históricos que não exigem provas adicionais. A diferença é que, para quem crê no poder da oração e na eficácia das respostas, e também na comunicabilidade do Senhor, tudo já está suficientemente evidenciado. Para quem não crê, como vocês, tudo não passa de sonho, ilusão, loucura, absurdo e motivo de contendas familiares.

Da mesma forma como esperam que eu reflita sobre tudo o que escreveram, espero que façam o mesmo com o que estão lendo. Não é uma troca justa? Por mais lógica que pareça uma argumentação, nem por isso está necessariamente de acordo com o que Deus pensa a respeito. Essa verdade também pode ser aplicada ao meu caso, e é mais um bom motivo para procurarmos o Senhor. Não tenho qualquer problema em tentar. E vocês?

Já estou sabendo que, a exemplo de todas as outras, estas palavras não os tocarão. Mas pelo menos fiz minha parte. Nunca poderão dizer que não foram advertidos. No dia do julgamento — ou mesmo antes, no mundo espiritual — terão consciência de que tiveram dentro de sua própria casa alguém muito mais especial do que simplesmente um filho. Espero que ainda esteja em tempo de se arrependerem.

Já estou sabendo também que a barra espiritual vai ser pesada quando voltar para casa. Desobrigado do chamado missionário e de volta à rotina familiar, eles certamente não vão descansar enquanto não me fizerem voltar ao que era. Não usarão de força, claro, mas de insistente persuasão e argumentação. Vai ser uma tortura. Infelizmente, terei de suportá-la sozinho. Se ao menos tivesse um primo ou irmão em quem me apoiar, como na missão tenho um companheiro, o fardo poderia não ser tão pesado. Pedi ao Senhor em oração que me ajudasse a descobrir o que poderia fazer para aumentar minha força contra as tentações — todas elas. A resposta veio em minutos, ouvindo um dos oradores de uma das sacramentais do mês. O Espírito me “chacoalhou” para uma frase dita pelo presidente do distrito de Pelotas em seu discurso: “A leitura do Livro de Mórmon é o único meio de obtermos força espiritual bastante para suportar e vencer as tentações”.

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Meu maravilhoso companheiro e eu

Às vezes me flagro em lamentações por não ter sido abençoado com um irmão como meu atual companheiro. Ele não é apenas um missionário maravilhoso, é uma pessoa maravilhosa. Trabalhar com ele está sendo uma bênção sem igual, comparável apenas à época de Porto Alegre com meu primeiro companheiro americano. Com ele estou dando grandes palestras e tendo um excelente companheirismo. Pensando sobre isso, noto que minha missão mudou da água para o vinho quando passei a ser sênior. Por que será que não tive nenhum bom companheiro sênior quando era júnior?

Ele também está sendo responsável pela paz e tranqüilidade necessárias para desenvolver minha espiritualidade a ponto de conseguir discernir com facilidade os espíritos que habitam os corpos das pessoas com quem converso, principalmente nas entrevistas batismais. O candidato nem precisa dizer se entendeu ou não os princípios do evangelho e se pretende permanecer fiel aos convênios que está firmando naquele momento. Tudo isso já sei antes que abra a boca. Sabendo quem os ouvintes espiritualmente são, fica mais fácil dar palestras mais produtivas e inspiradas. Também já aconteceu várias vezes de, andando na rua, ver que o espírito de uma determinada pessoa precisa de nossa mensagem, ou que através daquela pessoa chegaríamos a uma outra, importante. Seguindo a orientação do Espírito num dia em que todo o nosso planejamento estava dando errado, obtivemos quatro desafios batismais aceitos em menos de dez minutos. Todas essas são experiências que, creio, são vividas apenas por missionários profundamente entrosados com o Espírito do Senhor. Sinto-O o tempo todo.

Não acho que tenha algo a ver com o que acabo de relatar, mas um fato ocorrido num desses dias está me intrigando. O sol ia alto e forte, mas havia algumas nuvens negras nos arredores da cidade em pontos localizados. Durante todo aquele dia não caiu uma só gota de chuva. Mesmo assim, e apesar da distância das nuvens, um violento raio caiu a poucos metros de nós, seguido de um trovão ensurdecedor que estremeceu a cidade, fazendo com que muitos se apavorassem. Nenhum outro raio caiu naquele dia, nem nenhum outro trovão foi ouvido. Coincidência?

Trouxemos mais duas almas para o Reino neste mês, mãe e filho, sendo este o segundo de seus sete filhos que já foram batizados, além de sua mãe, irmã e sobrinho, que moram com ela.

Apesar de minhas palavras aparentarem que nosso trabalho vai às mil maravilhas, não é bem assim. É verdade que estamos sendo docemente acompanhados e dirigidos pelo Espírito, mas 80% de nossas famílias é verde. Os batismos que nosso distrito está produzindo não estão deixando o presidente da estaca satisfeito. O triste mas verdadeiro motivo foi explicado por ele em seu discurso numa reunião: “O Senhor não está mostrando os eleitos aos élderes por causa da iniqüidade dos membros da Igreja. Ele não os porá no meio dos que não lhes poderão criar um ambiente santo que os fortaleça e os sustente no evangelho, para que não entrem por uma porta e saiam por outra”. O presidente está furioso com todo mundo e promete algumas excomunhões para breve se os que a merecem não se arrependerem. Confesso que não imaginava que a situação estivesse assim. Pensando bem, faz sentido. Pelo menos no que diz respeito ao que se espera dos membros quanto à obra missionária, quando cheguei havia uma chuva de referências. As sísteres já vinham batizando, comecei a batizar também e, de repente… tudo parou. Apesar de todos os batismos de nosso distrito desde o início do ano, a freqüência às sacramentais não sofreu qualquer alteração.

Mesmo com tais dificuldades, os missionários têm que continuar seu trabalho. No meu caso, embora 80% de nossas famílias seja verde, não vejo porque o Espírito nos guiaria até elas se não houvesse um propósito. Eu mesmo era um verde quando tive contato com os primeiros missionários que conheci, um ano antes de meu batismo. Numa conferência de zona em Alegrete, neste mês, o presidente desafiou os missionários a ter o próprio Salvador como companheiro. Confesso que ainda não havia pensado nessa possibilidade, embora saiba que Ele esteja atuando como meu segundo companheiro através do Espírito que sinto permanentemente comigo. Mas este é um desafio novo, o qual aceito com alegria e plena convicção de ser possível vencer. O Salvador certamente teria visitado meus 80% de famílias verdes.

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