Vinde, Ó Santos

Antes de escrever qualquer coisa, convido você a assistir o vídeo abaixo.

Ele mostra o Coro do Tabernáculo Mórmon e orquestra interpretando o hino “Vinde, Ó Santos” em magistral arranjo de Mark Wilberg.

Se o hino original já é emocionante, com esse arranjo já foi capaz de me levar às lágrimas. Mais de uma vez.

O principal sentimento que toma conta de mim ao ouvir o hino — seja em sua versão original ou nessa — é o de vitória. É o de que somos vencedores. É a certeza de que, a despeito de todas as pugentes dificuldades, “se vagas encapeladas conspirarem contra [nós]; se ventos furiosos se tornarem [nossos] inimigos; se os céus se cobrirem de escuridão e todos os elementos se unirem para obstruir o caminho; e, acima de tudo, se as próprias mandíbulas do inferno escancararem a boca para [tragar-nos]” (D&C 122:7), nada nem ninguém poderá barrar o progresso desta obra maravilhosa. E isto por uma razão muito simples: ela é de Deus. Ninguém pode contra Ele. Quem estiver com Ele, triunfará.

Esse é o sentimento que este grandioso hino me transmite.

Quando penso no início humilde que a Igreja teve e em todo o sofrimento e dor infligidos aos pioneiros pela cruel perseguição religiosa e comparo isso com o que a Igreja é hoje — uma grande e sólida Igreja mundial com dezenas de milhões de membros e uma das que mais crescem no mundo —, tenho vontade de sair à rua gritando de alegria pelo orgulho de fazer parte dessa obra, que também estou ajudando a construir através do pouco que posso fazer. Este site é parte desse esforço de propagar ao mundo a verdade de que Deus vive e que esta é Sua Igreja — não apenas mais uma organização religiosa que pretende ser de Cristo, mas a única que Ele reconhece como sendo Sua, pois foi instituída não pelas mãos de homens, mas pelo próprio Deus em Pessoa. Não O vi fazer isso com meus próprios olhos — assim como não vi Jesus ressuscitar, não vi Adão e Eva no Jardim do Éden nem o mundo ser criado e, acima de tudo, nunca vi Deus (ainda) —, mas não preciso ver para saber que é verdade. O mesmo Espírito Santo que presta testemunho da realidade de um Deus vivo é o que presta da divindade da missão do profeta Joseph Smith, por meio de quem Ele restaurou Sua Igreja e a plenitude de Seu Evangelho. Sei disso com tanta certeza quanto se já tivesse nascido com ela. Prefiro a morte e uma condenação ao tormento eterno a negar o que sei. Não nego nem que minha vida e a de minha família dependam disso.

E foi exatamente essa mesma certeza que fez com que os pioneiros da Igreja se sentissem na necessidade de se sujeitar ao tipo de sofrimento descrito abaixo.

A história do hino

O êxodo dos mórmons de Nauvoo, Illinois, em fevereiro de 1846, figura como um dos acontecimentos épicos na história dos pioneiros dos Estados Unidos da América. No rigoroso inverno, eles atravessaram o rio Mississipi, tendo carregado em carroções o pouco que podiam levar consigo. Atrás deles deixaram os lares que haviam construído no pântano de Commerce durante os sete anos que puderam viver em Illinois. Diante deles, estendiam-se regiões desabitadas e desconhecidas em sua grande parte.

Em virtude de esta marcha parecer-se tanto com o êxodo dos israelitas do Egito para uma terra prometida, que não tinham visto, os mórmons deram a esse movimento o nome de “O Acampamento de Israel”.

Brigham Young e o primeiro grupo atravessaram o rio a 4 de fevereiro. Alguns dias mais tarde, o rio estava suficientemente gelado para agüentar os cavalos e os carroções. Mas, apesar do frio ter apressado o movimento, trouxe também intenso sofrimento. Eliza R. Snow, membro do grupo, escreveu o seguinte, a respeito das condições em que se encontravam esses exilados:

“Fui informada de que nasceram nove crianças na primeira noite de acampamento e, desde aquela época, ao prosseguirmos viagem, as mães davam a luz sob as mais variadas circunstâncias, algumas em tendas, outras nos carroções, sob a chuva ou tempestade de neve…

Deve-se lembrar que as mães dessas crianças nascidas no ermo não eram selvagens, acostumadas a vagar pelas florestas e a desafiar os temporais e tempestades… A maioria delas ha via nascido nos estados do leste (dos Estados Unidos) e lá abraçaram o evangelho, tal como havia sido ensinado por Jesus e seus apóstolos, e pela sua religião haviam-se unido aos santos. Sob trágicas circunstâncias, haviam auxiliado, com fé, paciência e energia, a fazer de Nauvoo o que o nome indica: “A Bela”. Tinham tido lindas casas, decoradas com flores e enriquecidas com árvores das melhores frutas, que mal haviam começado a produzir abundantemente.

A estes lares, sem terem sido alugados ou vendidos, elas acabavam de dizer adeus e, com o pouco que podia ser carregado em um, dois, e em alguns casos, três carroções, partiram em direção ao ermo, para onde? A única resposta a esta pergunta, naquele tempo, era: ‘Deus sabe.'”

Brigham Young presidia este grupo de peregrinos. Aceitaram-no como profeta, líder e inspirado sucessor de seu querido Joseph. Acreditavam que ele os conduziria a um local de refúgio “entre as Montanhas Rochosas”, onde Joseph havia predito que se tornariam “um povo poderoso”.

Plantio Para Outros Ceifeiros

Depois que os exilados chegaram a Iowa, pelo rio Mississipi, organizaram-se em grupos de cem e determinaram os padrões de conduta. Subdividiram-se em grupos de cinqüenta, que por sua vez eram divididos em grupos de dez, com oficiais que orientavam cada grupo. Brigham Young foi apoiado como “presidente de todo o Acampamento de Israel”.

Viajaram a noroeste, atravessaram o território de Iowa, por uma região pouco habitada entre os rios Missouri e Mississipi. Nos primeiros dias de percurso, a neve se acumulava no chão, numa altura de cerca de dois metros a dois metros e meio, oferecendo as cobertas de lona de seus carroções pouca proteção contra o frio e o cortante vento setentrional.

Com a chegada da primavera, a neve se derreteu, tornando a viagem ainda mais difícil. Não havia estradas na direção em que os santos viajavam e eles tinham de construir seu próprio caminho. As vezes a lama era tão profunda, que se necessitava de três juntas de bois para puxar uma carga de duzentos e cinqüenta quilos. Exaustos após um dia de puxar e empurrar, cortar madeira para pontes, carregar e descarregar carroções, os viajantes descobriram ter viajado apenas uns dez quilômetros. A lama e a chuva faziam de seus campos verdadeiros atoleiros. O fato de estarem expostos a tais condições, e mais a alimentação inadequada, ceifou uma grande quantidade de vidas.

Os enterros durante a viagem eram freqüentes. Um tosco ataúde feito de madeira, uma breve cerimônia fúnebre e os bem-amados do morto voltavam a face e os animais em direção ao oeste, compreendendo que jamais passariam novamente por aquele caminho. É admirável que esse povo não se tenha tornado amargurado e vingativo, especialmente quando se lembravam de suas casas confortáveis, agora assaltadas e queimadas pela turba de Illinois.

Mas aliviavam as dores com prazeres que eles mesmos encontravam. Tinham banda de música, e utilizavam-na bastante. Os colonizadores de Iowa admiravam-se de ver aqueles pioneiros limpar a terra ao redor de seu acampamento e então dançar e cantar ate que a corneta soasse o recolher.

Foi enquanto viajavam nessas circunstâncias que um deles, William Clayton, compôs um hino épico das planícies, “Vinde, ó Santos”. Adaptado de antiga cançoneta inglesa, tornou-se um hino de esperança e fé para os milhares de pioneiros mórmons. Talvez nada expresse melhor o espírito desse movimento.

A letra

(Letra: William Clayton; música: antiga melodia inglesa)

Vinde, ó santos, sem medo ou temor,
Mas alegres andai.
Rude é o caminho ao triste viajor,
Mas com fé, caminhai.
É bem melhor encorajar,
E o sofrimento amenizar.
Podeis agora, em paz cantar:
Tudo bem! Tudo bem!

For que dizeis: “É dura a provação”?
Tudo é bom, não temais.
Por que pensais em grande galardão,
Se a luta evitais.
Mas não deveis desanimar,
Se tendes Deus para vos amar;
Podeis agora, proclamar:
Tudo bem! Tudo bem!

Sem aflição, em paz e sem temor,
Encontramos um lar.
Hoje, libertos do pesar e dor,
Vamos todos cantar.
Partindo de nosso coração,
Bem alto e com resolução,
O nosso glorioso refrão:
Tudo bem! Tudo bem!

Chegando a morte, tudo irá bem,
Vamos paz, todos ter.
Livres das lutas, e dores também,
Com os justos, viver.
Mas, se a vida Deus nos poupar,
Bem alto poderemos cantar,
A uma só voz entoar:
Tudo bem! Tudo bem!

O movimento caracterizava-se por um espírito de cooperação mútua, sem o que a Jornada de vinte mil pessoas através do ermo teria, talvez, terminado em desastre.

(Extraído do livro A Verdade Restaurada, de Gordon B. Hinckley, presidente de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias desde 1995.)

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7 comentários em Vinde, Ó Santos

  1. Christian Freitas disse:

    Olá irmão Marcelo,

    Muito bom este post e todo o seu blog. Parabéns. Este hino realmente é lindo. Nos faz refletir bastante sobre como devemos enfrentar os desafios da vida. Obrigado.

    Sou Encarregado de Música de minha estaca e regente do coral. Gostaria de saber se você tem ou sabe onde posso encontrar a partitura deste hino com este arranjo de Mack Wilberg.

    • Marcelo Todaro disse:

      Olá, Christian.

      Uma pesquisa básica no Google me levou até esta página, onde a partitura está à venda. Espero que ajude.

      Fazia uns 5 anos que eu não olhava para este artigo e não tinha percebido que o vídeo original havia sido removido do YouTube. Só percebi por conta do seu comentário. Então substituí-o pelo que está agora aí em cima, o qual convido-o a assistir.

      Um abraço!

  2. Amaro Filho disse:

    Marcelo, vc detona! Esse blog é show!
    O coral de nossa estaca começará a ensair este hino no próximo Domingo.

  3. Marcelo Todaro disse:

    Irmão José Salviano,

    Obrigado por seu comentário. Se posso dar-lhe um conselho, permaneça firme. Mantenha estreito contato com seu bispo. Ore sempre e ore MUITO. Não há nada impossível para nosso Pai Celestial e ele pode abrir o caminho para que você vá para a missão. Faça sua parte e Ele fará a Dele. Falo por experiência própria, pois também precisei passar por muito sofrimento para conseguir sair em missão. Hoje, 23 anos depois, testifico que foi uma das decisões mais acertadas de minha vida.

    Um abraço!

  4. JOSE SALVIANO disse:

    GOSTEI MUITO DE TODO O CONTEÚDO!!!!!!
    CONTINUE ASSIM!!!!!!!

  5. JOSE SALVIANO disse:

    olá irmão todaro, gostaria de falar que esta obra é santa e nunguém poderá pará-la. Sou muito grato por pertencer a ela!
    Este hino me tarz um sentimento de brandura, luta e vitória.Tudo o que os santos sofreram naquela época, me traz um sentimento de dever cumprido, como eles estão felizes por terem sofrido somente pelo Senhor e ter dados os seus sacrifícios!
    Sinto-me motivado também todas as vezes que ouço que nada é mais forte do que a vontade do Pai, e que ele conhece a cada um de nós.Sou o único menbro da família que é da igreja, sofro muito poir isso, meus pais são falecidos e moro com meus irmãos, eles não permitem eu fazer missão, e desde já peço a todos que me ajudem em orações para que eu possa fazê-la!
    muito obrigado, sejam felizes e fiquem firmes!!!!!!!!

  6. Otaviogois disse:

    Irmão Todaro, vc consegui me fazer sentir inspirado. Obrigado! Chorei enquanto entoava o hino para meus colegas de trabalho. Li para eles o texto sobre o êxodo mormon que vc colocou em sua página e eles ficaram bastante reflexivos. Depois declamei o hino em voz alta, dando a devida entonação nos altos e baixos. Eles ficaram em silêncio! Depois comentaram que assistiram na Band um filme sobre o êxodo dos mórmons.

    GOSTEI MUITO DE TUDO QUE VI AQUI. PARABÉNS!

 

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