Santana do Livramento, dezembro de 1986

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A criança em meu colo é Davi, de quem falo no texto

A história que passo a relatar aconteceu com uma família que conheci numa divisão que fiz com um dos missionários de meu distrito em Pelotas antes de minha transferência para Santana do Livramento. A história é realmente impressionante e, de tão impressionante, pode-se até duvidar de sua veracidade. De qualquer modo, acho que é meu dever relatá-la para que se saiba da verdade no futuro.

Aquele missionário tinha em sua área uma família composta por um casal com vários filhos. Conta a mãe que o nascimento do caçula foi cercado de vários perigos de natureza espiritual. Segundo ela, forças malignas queriam a todo custo impedir seu nascimento. Por revelação, ela soube que o garoto deveria ser chamado de Davi e que o propósito de sua vinda a este mundo representaria algo terrível para Satanás, tanto que ele, por diversas vezes, tentou fazer com que o feto morresse. Conta ela que viu Satanás furioso quando Davi nasceu.

Davi é uma criança adorável, dono de um sorriso meigo e absolutamente cativante. Fez-me perguntas sobre minha terra natal e me mostrou sua criação de coelhos, sua plantação de uvas e seu cata-vento.

Davi me contou que, há pouco tempo, sua família estava reunida para orar (provavelmente à hora da refeição). Sua mãe dissera: “Pediremos ao Senhor que esteja conosco neste momento”. Durante a oração, contou Davi, um clarão à sua frente chamou sua atenção, por isso abriu os olhos e viu duas pessoas. Uma delas em pé, outra mais acima, “sentada numa cadeira”. O que estava em pé teria aberto os braços e dito: “Eis-me aqui convosco”. Davi teria sido o único a ter tido essa visão.

A mãe contou que, um ano antes, seu marido viu um senhor bem velhinho, com longas barbas brancas, andando na estrada, e sentiu que deveria convidá-lo a entrar em casa. Serviram-lhe uma refeição e o homem teria comido bem mais do que um ser humano normal seria capaz de suportar. Ele, porém, recusava-se a dirigir o olhar na direção dela. Falou algumas palavras muito especiais ao marido e, ao se despedir, fitou-a profundamente. Afirma que somente então compreendeu a profundidade das palavras ditas ao marido. Apesar de aparentar ser bem velho, o homem tinha a cútis de um menino e seus olhos eram de um azul mais forte que o do céu. Mesmo sem ter-lhe dirigido a palavra, ela conta que teve vontade de chorar de emoção mesmo sem saber por quê. A passagem daquele homem, que afirmava ser do nordeste, trouxera uma inexplicável alegria e paz àquele lar. Depois, conta que se ajoelhou e pediu que o Senhor lhe dissesse quem era aquele homem misterioso que em momento algum quis se identificar. Em resposta, o Espírito disse-lhe que lesse 3 Néfi 28. Esse capítulo fala dos três nefitas.

Ela conta ainda que sua bênção patriarcal diz que foi abençoada com a capacidade de lembrar-se de algumas cenas da pré-existência. Ela confirma que se lembra mesmo.

Aquele casal se prepara para o batismo na Igreja. Pode parecer estranho que uma mulher que tenha uma bênção patriarcal não seja membro. Ocorre que ela já o foi em tempos passados, mas teria sido excomungada e estaria agora trilhando o caminho de volta. Acontece que seu marido na verdade não é ainda oficialmente seu marido, pois não são casados (razão, talvez, da excomunhão dela). Ele não tem dinheiro para pagar a ação de divórcio de sua ex-mulher e, enquanto isso não acontecer e não puder se casar com a atual companheira, nenhum dos dois poderá ser batizado.

Mesmo assim, não sei descrever os sentimentos que vivi em companhia daquela família especial. Não me recordo de ter sentido algo parecido antes.

(Comentário posterior) Embora a história dessa família seja realmente impressionante, sinto haver algo errado nela. Quando testifica da verdade, o Espírito não deixa dúvidas — e este não é o caso.

E por falar em sentimentos, que dizer do sentimento que me fez tirar uma de nossas pesquisadoras de dentro de uma outra igreja para levá-la a assistir as reuniões de nossa ala? Tínhamos dela um compromisso de levá-la para visitar a Igreja num domingo. Ao chegarmos à sua casa, sua mãe disse que tinha ido a outra igreja. “Ah, mas ela vai cumprir o que prometeu!”, pensei. Não tive dúvidas: fomos buscá-la onde estava. Pelo menos assistiu metade da escola dominical e toda a sacramental. Não pensei que eu fosse ter “peito” para fazer algo assim.

As missionárias de meu novo distrito em Santana do Livramento

As missionárias de meu novo distrito em Santana do Livramento

Minha transferência chegou no dia seguinte. Deixei Pelotas para trás e também o trauma de passar quatro meses sem batismos. Minha nova área está sendo um alívio para minhas dores espirituais, pois até o momento os membros estão empenhados na obra missionária e recebemos deles muitas referências. Eles mesmos vão buscar seus visitantes. Já deu para sentir uma nítida diferença na espiritualidade e reverência das reuniões dominicais. Faz parte de minha nova área a casa do presidente da estaca. Já estava na hora de ser presenteado com uma área assim.

Santana do Livramento está me oferecendo agora outro tipo de desafio: o de treinar membros para a obra missionária e consertar alguns problemas em meu novo companheiro. Tenho certeza de que ainda terei muito o que escrever sobre esta nova área. No mais, exceto pelo “refrescante” calor que tem feito (mais de 40ºC), meus dias têm sido agradáveis e inspirados.

Já fiz algumas divisões com meus líderes de zona. Numa delas, voltei a Alegrete e gostei muito de rever minha terceira área e alguns de meus batismos que ficaram firmes na Igreja. Isso me foi muito gratificante.

Celebração natalina com a família do presidente da estaca

Celebração natalina com a família do presidente da estaca

No fim do mês, participamos de uma celebração natalina na casa do presidente da estaca. Aquele é o exemplo de um verdadeiro lar santo dos últimos dias! Os hinos, as orações, o espírito de Natal, tudo ali me trouxe inéditos sentimentos de paz, alegria e fraternidade, diametralmente opostos aos do Natal anterior, no qual me consumi em tristeza por minha família, e diferentes dos sentimentos já bem conhecidos dos dezenove Natais anteriores com ela. Este é o verdadeiro espírito de Natal, aquele era o espírito de festa. Que Deus me abençoe para conseguir transformar o anterior no atual quando retornar ao lar.

No último domingo do mês escrevi ao presidente dizendo que estou bastante satisfeito com meus resultados. Os batismos estão prestes a acontecer e a maioria das metas foi atingida, se não ultrapassada. Cada vez mais estou conhecendo o que é agir pelo Espírito na maioria das coisas. Tenho também um companheiro poderoso e que me ajuda muito.

Encerrando o mês, participei em Porto Alegre de uma conferência para líderes de distrito na qual o discurso do presidente produziu algumas frases inspiradas que faço questão de transcrever:

“Os élderes são sempre 99% maravilhosos. Os líderes de distrito são sempre 100% maravilhosos.”

“Se você não criticar nenhum missionário na missão, seu trabalho irá de zero a dez. Ponha à prova.”

“O trabalho derrete qualquer problema.”

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14 comentários em Santana do Livramento, dezembro de 1986

  1. joana disse:

    Olá! Sou um membro de Portugal. Mas o senhor mesmo afirmou que sentiu algo de errado com esse relato,certo? Como assim? Será que pode ser “muita invenção?” Obrigada, cumprimentos

    • Marcelo Todaro disse:

      Olá, Joana.

      Não sei dizer ao certo. Pode ser que algum elemento da história conforme a ouvi não seja preciso, não tenho como saber. O que sei é que na época senti que não deveria dar demasiada importância a ela, pelo menos não mais do que o necessário para registrá-la em meu diário e seguir em frente. Nunca mais tive notícias daquela família para saber o que houve depois.

      Um abraço!

  2. Pingback: Os Três Nefitas e o Diário Missionário | OsMórmons.com

  3. juliano disse:

    Gostei desses relatos, um site publicou partes dessa história linda. OSMORMONS.COM

  4. Ana Maria disse:

    Como quase todas as pessoas nesta vida, passamos por experiências que marcam tanto nossas vidas como a vida de outras pessoas…
    Muito interessante a estória do pequeno Davi, e sobre a aparição de um dos três nefitas…
    Sei que eles estão por ai, e meu mais profundo desejo é de um dia ter o privilégio de conhecê-los, ainda nesta vida!!
    Sei que muitos outros desejos justos poderão ser realizados, de acordo com nossa dignidade.

  5. Alexandre disse:

    Hoje estava estudando o livro de Mormon 3 nefi 28 ao vir pro trabalho e fiquei muito interessado na historia dos 3 nefitas e resulvi pesquisar e acabei encontrando seu site e achei muito interessante sua experiencia na missão, parabens pelo blog adimiro atitudes como a sua um grande abraço

  6. Mariana Martinelly disse:

    Caro irmão Marcelo, eu não duvido mas de tipo algum desta história incrivel de Davi, e sabe porque? Já ouvi outras parecidas, bom saber que o própio filho será um ungido, bom isto eu também soube antesde ser membro da igreja, se assim não fosse talves nunca teria aceitoa visita dos elderes em casa não naquela casa, e naquela época, mas aconteceu como já lhe disse antes, e hoje é confirmada com a dedcação sem precedentes de meu filho as coisas do evangelho, quanto ao homem estranho andar por ai , bom meu tataravô contava quena época que era tropeiro existia aqui no sul oum homem que todos diziam ser santo e que atravesava o rio cheio sem barco, sim que ele e a tropa as vezes via o homem do lado de cá do rio iguaçu e de repente viam o mesmo do lado de lá, como ele ia ninguém sabe, mas que elecurava as doenças só com o toque das mãos e que nunca parava em canto algum, imagine uma pessoa idosa de tunica alva andar pelos sertões e não ser ferido por nada? e isto por decadas! o nome dele era João Maria o profeta, conta a lenda que ele sumiou e nunca mais foi visto mas deixou um aviso no vilarejo que passava sempre, ele disse no dia que o povo aprender a orar Deus vai aprender a ouvir! Talves este também seja um dos tres nefitas vai saber! De minha parte eu sei apenas que nada é impossivel!

  7. Marília disse:

    Marcelo, você tem alguma notícia do Davi hoje em dia?

 

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