‘Páscoa não é isso’

Publicado em 23 de março de 2008 e atualizado em 13 de fevereiro de 2024

Uma das atividades que exerço por profissão é escrever artigos para um site especializado em tecnologia que criei. Desde quando o inaugurei, sua popularidade deu um salto espetacular: o número de visitas cresceu mais de mil porcento e ganhou grande visibilidade e credibilidade. A maior prova disso é o interesse de agências de publicidade em inclui-lo em sua relação de veículos de comunicação para os quais intermedia anúncios publicitários de seus clientes.

Nesses período já passei por diversas datas comemorativas: páscoa, dia das mães, São João, dia dos pais, independência, finados, Natal, etc. Sempre que uma dessas datas especiais se aproxima, gosto de colocar no site um banner alusivo à data.

Com a proximidade da Páscoa deste ano, tive o desejo de fazer o mesmo. Pensei em criar um banner bem simpático exibindo ovos e coelhos de chocolate junto com a expressão “Feliz Páscoa”. Cheguei a começar a criar uma arte com ovos e coelhos de chocolate, mas, assim que comecei, o Espírito do Senhor me disse: “Páscoa não é isso”.

É verdade, não é mesmo. Eu estava tão envolvido pela onda cultural tradicional dos ovos e coelhos de chocolate que nem tinha me dado conta de que iria agir como um papagaio, repetindo o que o mundo faz sem meditar sobre o que significa. Eu não poderia fazer isso. Sou um portador do sacerdócio. Já que conheço o verdadeiro significado da páscoa e disponho de um bom veículo de divulgação, tenho a obrigação de passar adiante a verdadeira mensagem.

Ovos, chocolate e coelhinhos

Alguns historiadores sugerem que as raízes dos atuais símbolos ligados à páscoa são resquícios culturais da festividade de primavera (no hemisfério norte) em honra de Eostre, deusa pagã da fertilidade e do renascimento nas mitologias anglo-saxã, nórdica e germânica. Depois da cristianização dos pagãos germânicos, esses símbolos foram assimilados às celebrações da páscoa judaica. Persas, romanos, judeus e armênios tinham o hábito de oferecer e receber ovos coloridos por esta época.

Um ritual importante ocorria no equinócio da primavera, onde os participantes pintavam e decoravam ovos (símbolo da fertilidade) e os escondiam e enterravam em tocas nos campos. Este ritual foi adaptado pelo catolicismo romano no principio do 1º milênio depois de Cristo, fundindo-o com outra festa popular da época chamada de páscoa.

O hábito de dar ovos de verdade (geralmente de galinha) vem da tradição pagã. É uma tradição muito, muito antiga. Centenas de anos antes da era cristã, na Ucrânia, já se trocavam ovos pintados com motivos de natureza em celebração à chegada da primavera. Os chineses e os povos do Mediterrâneo também tinham como hábito dar ovos uns aos outros para comemorar a estação do ano. Para deixá-los coloridos, cozinhavam-nos com beterrabas. Mas os ovos não eram para ser comidos, e sim serviam apenas como presente que simbolizava o início da vida.

A tradição de homenagear essa estação do ano continuou durante a Idade Média entre os povos pagãos da Europa. Eles celebravam Ostera, a deusa da primavera, simbolizada por uma mulher que segurava um ovo em sua mão e observava um coelho, representante da fertilidade, pulando alegremente ao redor de seus pés.

Foi o imperador romano Constantino, no Concílio de Nicéia, realizado no ano 325, que introduziu no cristianismo o culto à data e adotou a imagem do ovo para festejar a páscoa da ressurreição de Jesus. Na época, pintavam-se os ovos (geralmente de galinha, gansa ou codorna) com imagens de figuras religiosas, como o próprio Jesus e Sua mãe, Maria. O Concílio estabeleceu também de que maneira a data comemorativa da páscoa cristã seria calculada a cada ano: no primeiro domingo após a primeira Lua cheia da primavera (no hemisfério norte).

Na Inglaterra do Séc. X os ovos ficaram ainda mais sofisticados. O rei Eduardo I (900-924) costumava presentear a realeza e seus súditos com ovos banhados em ouro ou decorados com pedras preciosas na Páscoa. Não é difícil imaginar por que esse hábito não durou muito.

Foi só no Séc. XVIII que confeiteiros franceses tiveram a idéia de fazer ovos de chocolate — iguaria que aparecera por volta de 1500 a.C. na região do Golfo do México. A imagem do coelho apareceu na mesma época, associada à criação por causa de sua grande prole.

A páscoa dos judeus

Mas, como o Espírito me alertou, páscoa não é nada disso.

A páscoa teve sua origem com os israelitas do tempo de Moisés, profeta do Velho Testamento, e nada tinha a ver com ovos, coelhos ou chocolate. Foi uma festa criada pelos judeus em lembrança da época em que o anjo destruidor passou por suas casas sem levar seus filhos e libertou-os do cativeiro e da escravidão no Egito (veja Êxodo 12:21–28). Os cordeiros sem mancha, cujo sangue foi usado como sinal para salvar a Israel antiga, simbolizavam Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus, cujo sacrifício redimiu toda a humanidade.

Quando Cristo foi morto e ressuscitou, Sua ressurreição aconteceu no domingo em que os judeus comemoravam essa páscoa. Desse dia em diante, a páscoa passou a representar Sua ressurreição -– já que o sacrifício simbolizado pela antiga páscoa já havia sido cumprido. O que comemoramos hoje em dia na páscoa, portanto, é a ressurreição de Cristo, a mesma da qual todos nós desfrutaremos daqui a algum tempo.

A grande importância da ressurreição de Cristo

Na Conferência Geral de abril de 1999, o Pres. Gordon B. Hinckley disse:

[A ressurreição de Cristo] não foi uma coisa sem importância. Não hesito em dizer que esse foi o maior acontecimento da história da humanidade. (…) Somente um Deus poderia ter feito o que Ele fez.

No mesmo discurso, ele discorre sobre como a ressurreição de Cristo afeta a todos nós, diretamente:

Graças a Seu sacrifício redentor, todos os homens se levantarão do sepulcro. Ele abriu o caminho pelo qual podemos alcançar não apenas a imortalidade, mas também a vida eterna.

Ainda hoje a data da páscoa parece ter grande importância para o Salvador. Em D&C 110 lemos a descrição da visita que Ele, Moisés, Elias e o outro Elias (o profeta) fizeram ao profeta Joseph Smith e a Oliver Cowdery por ocasião da dedicação do primeiro templo da era moderna, o Templo de Kirtland, em 3 de abril de 1836. Parece bastante significativo o fato de que aquela data era um domingo de páscoa. E não ficarei minimamente surpreso se a Segunda Vinda do Salvador acontecer também num domingo de páscoa.

Páscoa remete à Expiação e ressurreição de Cristo, não a ovos e coelhos de chocolate. Por isso, o banner que criei para meu site fez alusão à ressurreição. Do dia em que foi posto no site até hoje, deve ter sido exibido cerca de meio milhão de vezes. Espero que minha pequena contribuição tenha sido eficaz em lembrar o leitor do verdadeiro significado da páscoa.

Ah, e boa páscoa para você. 🙂

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