O milagre do perdão — um exemplo marcante

Recentemente fiquei sabendo de uma história impressionante sobre um homem que perdoou a esposa por um grande erro cometido por ela, um tipo de erro que pode gerar desdobramentos que, não raro, viram manchetes em páginas policiais.

O marido confiava nela irrestritamente. Não sentia ciúmes dela, nem estava preocupado em saber com quem andava e o que fazia. Sentia-se feliz em saber que era parte de um casal diferente, em meio ao qual não havia a insegurança típica do ciúme, e achava isso muito bom. Tinha a mais absoluta convicção de que, mesmo tendo todas as oportunidades do mundo, ela jamais seria capaz de traí-lo, até porque ela não tinha essa índole e porque fizeram convênios com o Senhor no templo e os levavam a sério.

Apesar disso, a vida do casal não era o que se pode chamar de tranquila. Eles tinham dificuldades de entrosamento basicamente porque não falavam a mesma língua. Suas prioridades não eram as mesmas, nem suas escalas de valores, nem a ótica com que viam o mundo. Ele tinha dificuldade em negociar com a esposa soluções para seus problemas comuns porque ela era um tanto intransigente em suas posições. Quando contrariada, por vezes reagia com severa indignação, que levava a mais desentendimentos.

Embora ele a amasse e se empenhasse em fazer todo possível para evitar brigas com a mulher, anulando-se muitas vezes para manter a paz entre eles, com o passar do tempo esse e outros problemas levaram-na a começar a se sentir cansada e decepcionada com sua vida conjugal. Foi quando começou a desabafar com um colega de trabalho que se mostrou atencioso e gentil. O resultado não é difícil de imaginar: acabaram envolvidos emocionalmente.

Meses depois, por acaso, o marido descobriu a traição. Para quem tinha irrestrita confiança na fidelidade da esposa, foi um imenso choque. No ato da descoberta, passou alguns momentos anestesiado, paralisado, atordoado e tremendo. Sua vista escureceu. Seu coração quase saiu pela boca de tão disparado. Não se viu no espelho naquele momento, mas achou que tinha ficado branco feito vela e que teria um colapso.

Apesar disso, conseguiu manter calma e serenidade suficientes para não reagir impulsivamente. Enquanto não decidisse o que fazer, ele não queria que ela soubesse que havia descoberto tudo. Passou alguns dias olhando para ela e, secretamente, sentindo um mal estar tamanho que nem lhe permitiu trabalhar direito. A lembrança dos e-mails de amor trocados entre ela e o amante, que o marido descobrira por acaso dias antes, insistia em desviar-lhe a atenção de tudo que se propunha a fazer. Seu peito doía. A dor era imensa. Mas ele nada deixou transparecer.

E aqui é que entra a parte nobre da história.

Aquele homem foi sábio o bastante para não tomar decisões no calor de um momento crítico, movido mais pela emoção do que pela razão. Fosse ele outra pessoa, sangue poderia ter sido derramado numa dessas reações primitivas de “legítima defesa da honra” típicas de quem não evoluiu o bastante para controlar o homem natural dentro de si. Mesmo que não chegasse a tanto, teria todo direito de repudiar a esposa adúltera e conseguir o divórcio. Num caso desses, a mulher infiel perde o direito a tudo, até à guarda dos filhos.

Mas, apesar da dilacerante decepção de constatar que, ao contrário do que imaginava, ela foi, sim, capaz de mentir para ele, de fazê-lo de bobo e de trair sua irrestrita confiança e a do Senhor, ele foi perfeitamente capaz de compreender que ela não era perfeita, vivia sob grande estresse, tinha fraquezas e estava fragilizada quando decidiu abrir seu coração a outro. Ele não tentou justificar o pecado dela, apenas compreendeu seus motivos, embora não servissem de desculpa.

Mesmo consumindo-se por dentro, triste, magoado, ofendido, com seu peito doendo e sentindo tudo de ruim que a descoberta de uma sórdida traição faz sentir, ele disse à amada esposa que a perdoava — antes mesmo de ouvir dela um contrito pedido de perdão. Do fundo de seu dilacerado coração, ele a perdoou. Não estava com raiva dela. Não queria e não iria expulsá-la de sua vida pelo que fez, pois achava que o que ela precisava era de ajuda, não de repúdio. Sabia que ela estava espiritualmente doente e não se cura uma doença repudiando o paciente. Por isso, ficou com ela para ajudá-la.

Não foi só por amor que decidiu não terminar seu casamento, mas também pelas seguintes palavras do Senhor:

Eu, o Senhor, perdôo os pecados daqueles que confessam seus pecados perante mim e pedem perdão, se não pecaram para morte.

Meus discípulos, nos dias antigos, procuraram pretextos uns contra os outros e em seu coração não se perdoaram; e por esse mal foram afligidos e severamente repreendidos.

Portanto digo-vos que vos deveis perdoar uns aos outros; pois aquele que não perdoa a seu irmão suas ofensas está em condenação diante do Senhor; pois nele permanece o pecado maior.

Eu, o Senhor, perdoarei a quem desejo perdoar, mas de vós é exigido que perdoeis a todos os homens.

E devíeis dizer em vosso coração: Que julgue Deus entre mim e ti e te recompense de acordo com teus feitos. (D&C 64:7-11)

Aquele homem nos deu um dos mais marcantes exemplos de aplicação do mandamento de perdoarmos uns aos outros de que se tem notícia. Acredito que tal gesto de nobreza e altruísmo pode ter salvo sua família e ajudado o homem a carimbar seu passaporte para a exaltação eterna que nosso Pai Celestial oferece a Seus filhos fiéis. Que esse exemplo inspirador sirva para todos quantos acham que não se pode perdoar uma traição.

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Um comentário em O milagre do perdão — um exemplo marcante

  1. Luiz Polito disse:

    Caro Marcelo
    Conheço pessoas bem próximas que agiram exatamente da mesma maneira, e salvaram suas famílias de um escândalo, destruição da família ou coisa pior. A gente se engana pensando que o selamento no Templo é garantia de que “tudo está bem”, porém, todos nós estamos sujeitos a cair, se não tomarmos cuidado.
    Infelizmente, também conhecemos famílias destruídas pela traição, dentro e fora da Igreja.
    Nem todos têm a força espiritual necessária para suportar uma dor tão grande, porém os que conseguem, podem não só salvar suas famílias, como entender o que é se perdoar alguém de algo tão sério, e depois receber um amor maior do perdoado, porque, como Cristo disse, “mais ama aquele de quem mais se perdôa”.
    Abraços

 

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