‘És tu maior que Ele?’

Borboleta-CasuloLembro-me de uma manhã em que eu havia descoberto um casulo na casca de uma árvore no momento em que a borboleta o rompia e se preparava para sair. Esperei bastante tempo, mas estava demorando muito e eu estava com pressa. Impaciente, comecei a ajudá-la a abrir o casulo, imaginando ser ele o responsável pelo retardo ou impedimento do processo de nascimento da borboleta. Graças à minha intervenção, o milagre da vida começou a acontecer diante de mim mais depressa que o natural. O invólucro foi aberto e a borboleta se arrastou para fora. Com seu corpinho ainda trêmulo, lutava para desdobrar as asas. Coloquei-a em minha mão e tentei ajudá-la várias vezes. Mas o desdobrar das asas deveria ser feito devagar, ao sol. Era necessária uma lenta maturação. Ela se agitou em desespero e, alguns segundos depois, morreu na palma da minha mão. Nunca hei de esquecer o horror que senti ao dar-me conta de que meus bem intencionados cuidados obrigaram a borboleta a nascer antes do tempo. Fiquei com um tremendo peso na consciência. Compreendi que não podemos nos apressar e ficar impacientes. Temos que seguir com confiança o ritmo da eternidade. Tive esta experiência com 9 anos e jamais a esqueci.

A autora do relato acima é minha amiga Ubirany Arruda Câmara, de Campina Grande/PB, cidade onde a conheci por ter sido onde fiz minha primeira faculdade, em meados da década de 1980. Ainda na infância, Ubirany teve a oportunidade de aprender e compreender um princípio eterno que hoje tem o privilégio de ensinar a seus dois filhos. Oro para que sorvam a sabedoria da mãe.

Sua experiência nada mais é que o cumprimento de diversas escrituras. Uma delas, muito conhecida, está em Eclesiastes 3:1-8:

Tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.

Há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de colher;

Tempo de matar e tempo de curar; tempo de derrubar e tempo de edificar;

Tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de dançar;

Tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar;

Tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de lançar fora;

Tempo de rasgar e tempo de coser; tempo de estar calado e tempo de falar;

Tempo de amar e tempo de odiar; tempo de guerra e tempo de paz.

Quando temos consciência de que nosso Pai Celestial está no comando do tempo e de todos os propósitos mencionados pelo autor dos versículos acima, fica mais fácil enfrentar os desafios do dia-a-dia sem nos impacientarmos, sem desejar que tudo só aconteça do nosso modo e não do de Deus. Até porque seria uma completa tolice tentar impedi-Lo de fazer as coisas como acha melhor para nós. Falando sobre a inglória tentativa de homens iníquos de frear ou impedir o crescimento da obra de Deus, o Profeta Joseph Smith disse: “Seria tão inútil o homem estender seu braço débil para deter o rio Missouri em seu curso ou fazê-lo ir correnteza acima, como o seria impedir que o Todo-Poderoso derramasse conhecimento do céu sobre a cabeça dos santos dos últimos dias” (D&C 121:33). Então não nos resta alternativa senão sujeitarmo-nos à Sua sábia e soberana vontade, cientes de que, como Pai bondoso e amoroso que é, Ele não planeja e executa para nós nada que não seja para nosso próprio bem, ainda que pareça o contrário.

É verdade que já me impacientei muitas vezes. Com meus olhos naturais, não posso enxergar além do que me é possível no limitado plano humano mortal. Mas todas as vezes em que me entreguei à angústia, aflição e ansiedade por causa de bênçãos não derramadas do modo ou no tempo desejado, foi porque eu não estava em sintonia com Ele como deveria. Quando essa sintonia acontece, o vácuo aberto por nossa impaciência é preenchido com paz, confiança e esperança.

Gosto muitíssimo das confortadoras palavras do Élder James E. Talmage, do Quórum dos Doze Apóstolos, escritas em algum momento do início do Séc. XX: “Somos propensos a contender com a adversidade, às vezes até com veemência e fúria, quando no final ela pode ser a manifestação da sabedoria divina e do cuidado amoroso de nosso Pai, interferindo em nosso conforto temporário em prol de uma bênção permanente. Nas tribulações e sofrimentos da mortalidade existe um ministério divino que apenas a alma (que está) afastada de Deus não consegue entender. Para muitos, a perda das riquezas tem sido uma bênção, um meio providencial de afastá-los dos confins da auto-indulgência e guiá-los à liberdade, onde ilimitadas oportunidades esperam aqueles que lutam por ela. A decepção, a tristeza e as aflições podem ser a manifestação da bondade sábia do Pai Celestial.” (Três Parábolas: A Abelha Insensata, O Expresso Corujão, As Duas Lâmpadas, A Liahona, fevereiro de 2003.)

Gosto muito também de uma citação feita pelo Élder James E. Faust, então membro do Quórum dos Doze Apóstolos, sobre como a adversidade pode nos trazer grandes benefícios: “Na dor, na agonia e nas empreitadas heróicas da vida, passamos pelo fogo do ourives; o que há de insignificante e sem importância em nossa vida derrete-se como refugo e nossa fé torna-se brilhante, intacta e forte. Dessa maneira, a imagem divina pode espelhar-se e partir da alma. É parte do tributo purificador, cobrado de alguns, para conhecerem a Deus. Nas agonias da vida, parece que escutamos melhor os sussurros tênues e piedosos do Pastor Divino.” (“O Fogo do Ourives”, A Liahona, outubro de 1979, pg. 89.)

Há pessoas que erroneamente acreditam que suas aflições são castigos de Deus. Mas existe muita diferença entre a fonte da tribulação e o uso que podemos fazer dela: “Infelizmente algumas de nossas maiores tribulações são resultado de nossa própria tolice e fraqueza e ocorrem devido a nosso descuido ou transgressão” (Ibidem, pg. 92). Outras de nossas aflições decorrem da fragilidade e da natureza corruptível de nosso corpo mortal, sujeito a doenças e defeitos. Outras ainda são causadas pelo mau uso do livre-arbítrio alheio.

Não temos que tentar determinar a causa de nossas provações pessoais, já que todos sofremos adversidades e desgostos, sejamos ou não membros dignos da Igreja. O que devemos fazer, isso sim, é tentar descobrir o que podemos aprender com elas, para nosso próprio benefício.

Falando de si mesmo, o Profeta Joseph Smith — que sofreu muito devido à iniquidade alheia — declarou: “Como Paulo, glorio-me na tribulação” (D&C 127:2).

Aliás, que maior exemplo de sofrimento causado pela iniquidade alheia podemos querer que o dado por nosso Salvador Jesus Cristo? Na história da humanidade, ninguém mais que Ele sofreu por isso. Ele é um exemplo perfeito de como suportar as provações. Falando de sofrimentos pelos quais teve que passar, o Salvador disse:

E se fores lançado na cova ou nas mãos de assassinos e receberes sentença de morte; se fores lançado no abismo; se vagas encapeladas conspirarem contra ti; se ventos furiosos se tornarem teus inimigos; se os céus se cobrirem de escuridão e todos os elementos se unirem para obstruir o caminho; e, acima de tudo, se as próprias mandíbulas do inferno escancararem a boca para tragar-te, sabe, meu filho, que todas essas coisas te servirão de experiência e serão para o teu bem.

O Filho do Homem desceu abaixo de todas elas. És tu maior do que ele? (D&C 122:7-8).

Eis a chave da questão: se alguém pode espelhar-se no Salvador ou no Profeta Joseph Smith — ou mesmo no Profeta Jó, meu exemplo predileto de paciência, resignação e humilde submissão à vontade do Senhor —, tal pessoa encontrará esperança e vitalidade para suportar suas próprias provações.

Bem-aventurado é o que guarda meus mandamentos, seja na vida ou na morte; e o que é fiel nas tribulações recebe maior recompensa no reino do céu.

Por agora não podeis, com vossos olhos naturais, ver o desígnio de vosso Deus com respeito às coisas que virão mais tarde nem a glória que se seguirá depois de muitas tribulações. (D&C 58:2-4)

Por fim, um conselho ao leitor: nunca peça ao Senhor alívio do peso de sua cruz pessoal. É um pedido errado. Ele não fará isso, pois nossa cruz pessoal é o modo pelo qual nos ensina o que precisamos aprender para nosso próprio progresso eterno. Além do mais, Ele nunca nos dá provações que não saiba de antemão sermos capazes de suportar. Ao invés, devemos perguntar-lhe: “O que desejas que eu aprenda com esta provação?”. Devemos também pedir-Lhe coragem para colocar em prática as lições aprendidas com as provações.

Como Ubirany aprendeu ainda na infância, temos que ser pacientes e humildes. Isso nos qualifica a vencer a experiência da mortalidade em vez de meramente sobreviver a ela.

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Um comentário em ‘És tu maior que Ele?’

  1. Luzimar Souza disse:

    É muito bom identificar um irmão, simplesmente pela forma de falar do Senhor.
    Achei maravilhosa essa experiência citada. Eu sempre aprendi grandes princípios por meio de coisas tão simples mas, tão importante.

 

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