Irreverência brasileira ou civilidade européia: eis a questão

Referente a novembro de 1998

Estou confuso.

Voltar ao Brasil vindo da Holanda não foi simplesmente um desembarcar do avião numa terra quente e sorridente. Foi também voltar a conviver com certas características de um povo descontraído e alegre das quais eu tinha esquecido nos meses de convivência com outro povo, compenetrado e eficiente.

Confesso que gostei mais do outro.

Consegui entender um pouco da frieza européia no fruto de seu trabalho: uma civilização rica e desenvolvida que preza a competência, o progresso, a auto-suficiência e a preservação de seus valores e cultura. Dá gosto ver tanta organização e civilidade, desenvolvidas ao longo de milênios de uma história que fazem questão de manter tão viva quanto se o passado fosse presente. Na foto, uma igreja do Séc. XIV mostra um dos mais fascinantes valores holandeses: a preservação de sua cultura e história.

Sair do Brasil para conviver com os europeus fez-me sentir como quando saio de Alagoas para ir a São Paulo. Volto dizendo que tomei um banho de civilização. As diferenças entre Alagoas e São Paulo são gritantes, mesmo pertencendo a um mesmo país. É como se fossem países diferentes. Essa é uma das características que fazem do Brasil um país difícil de ser entendido lá fora. O detalhe é que o banho europeu foi um banho de civilização que nem mesmo em São Paulo se pode tomar.

Conviver e trabalhar com eles representou uma vitória pessoal. Mesmo oriundo de um país menos desenvolvido, consegui fazer meu trabalho e minhas qualidades pessoais serem reconhecidas. Fiquei feliz com a conclusão de que, numa eventual mudança para a Europa, não terei dificuldades de adaptação. Posso tratar e ser tratado de igual para igual. Tal preocupação pode parecer banal, mas era uma constante. Sempre imaginei como seria encarado pelo fato de ser brasileiro e, exceto por um caso em particular, não tive qualquer problema.

Isso me anima a estabelecer metas maiores. Um dos saldos desta experiência foi o ganho de autoconfiança, como o filhote de pássaro que dá seu primeiro vôo. Sem dúvida vou querer aprender mais com eles e atingir o nível intelectual e social deles. É por isso que estou tentado a aceitar a possibilidade, agora real, de ir morar na Europa.

O nível social a que me refiro é até difícil de descrever. São muitos pequenos detalhes que lhes conferem notória e admirável sobriedade, disciplina, independência e autossuficiência, todas qualidades que aprecio muito. Tive uma singular oportunidade de observar o contraste de comportamento entre europeus e brasileiros na sala de embarque do aeroporto de Bruxelas, à espera do vôo que me traria de volta. Havia um grupo de brasileiros do tipo debochado e irreverente, divertindo-se com as próprias bobagens que diziam e faziam sem importar-se com quem estava ao redor. Aquela cena fez-me ficar aborrecido por estar voltando para um país onde a maioria do povo age daquela forma.

Depois, já de volta à rotina, tornei a ver as costumeiras barbaridades no trânsito, desrespeito ao consumidor, desmandos governamentais, lerdeza intelectual, injustiças sociais, tudo o que por três meses esqueci que existia. E agora estou ainda mais ponderativo: será mesmo que, depois de passar a caviar, preciso permanecer comendo pão com manteiga?

Deixar o Brasil para estabelecer-me, por exemplo, na Inglaterra, implicaria em alguns sacrifícios, como o de só poder ver minha bela e adorada Adriana de tempos em tempos, viver de favor ou em aperto financeiro por algum tempo e privado dos confortos que tenho em casa. Por outro lado, isso me lembra de sábios dizeres que ouvi recentemente: “Faça um sacrifício no começo da vida para não ter que fazer no fim”.

Isso explica minhas palavras no início do relato deste mês.

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