Minha misteriosa ligação com a Holanda

Referente a setembro de 1999

Quando Frans e eu cruzamos a fronteira de Luxemburgo com a Holanda, em 25 de agosto último, vários pensamentos começaram a vir naturalmente à tona do oceano de minhas memórias. Há pouco mais de um ano, eu desembarcava em Amsterdam em minha primeira viagem internacional, a qual, bem diferente do que jamais havia sonhado, acontecia não por turismo, mas a trabalho. Tal fato me conferiria a oportunidade de conviver com as pessoas e aprender com elas. Parece que isso criou em meu íntimo raízes mais profundas do que poderia imaginar.

Ainda na estrada, mas já dentro de Utrecht, um estranho sentimento de prazer e saudade me encheu por dentro. Era como se esta fosse a minha cidade, como se eu tivesse nascido e me criado aqui. Sinto-me de alguma forma ligado a este lugar, mesmo não entendendo uma palavra do que se diz ao meu redor nem tendo amigos com os quais tenha podido festejar meu retorno. Isso é muito estranho, mas real, e não tenho explicação para tal atração. Simplesmente acontece.

Muito curiosa foi também uma experiência que vivi recentemente ao ir jantar num restaurante tailandês à beira de um canal. Apareceu de repente um imigrante com aspecto de índio sul-americano (rosto redondo, olhos meio que orientais, pele parda e longos e lisos cabelos pretos) tocando cavaquinho e uma espécie de flauta de Pan presa ao pescoço. Quando bati os olhos nele, assombrei-me com a vívida e absolutamente cristalina recordação dessa mesma pessoa vista um ano antes perambulando pelas ruas da cidade. Tive a poderosa impressão de que o espaço de tempo que separava os dois encontros tinha sido de apenas um ou dois dias, nunca de 12 meses!

Apesar de alguns lugares da cidade terem tido seu aspecto modificado, realmente sinto-me como se não tivesse ido embora em novembro no ano passado. Esta mesma mesa, esta mesma cadeira, quarto, casa, rua, bairro, cidade, etc., me são tão familiares que me fazem pensar que passei entre eles muito mais que três meses. O que mais me assombra nesse tipo de impressão é que o mesmo não aconteceu quando voltei para casa, no Brasil, e certamente não vai acontecer no mês que vem. O que terá Utrecht de tão especial? Será que ficou assim tão marcada em minha mente só por ter sido meu primeiro destino fora do Brasil? Quem sabe no futuro eu possa dizer alguma coisa, mas por enquanto vou continuar me divertindo com essas recordações e com o prazer que estar aqui me traz.

Este mês foi muito proveitoso. Passei duas semanas na Alemanha, mais precisamente em Schweinfurt, hospedado na casa dos pais do gerente de hardware da DLA e trabalhando diretamente com ele. Foi muito bom, não apenas por ser ele uma pessoa de fácil trato como também por ter tido mais uma oportunidade de conviver com outro povo, possuidor de outra cultura, e também com estes ter me saído bem. Sempre ouvi dizer que os alemães não eram fáceis de se lidar, mas não tive qualquer problema com eles. Pelo contrário, pude ver com meus próprios olhos que, pelo menos os daquela parte do país, são gente muito agradável, bem humorada e à vontade. Senti-me tão bem entre eles que em alguns momentos nem vi a mim mesmo como estrangeiro. Com os funcionários de uma grande empresa de Lippstadt, por exemplo, senti-me como se tivesse voltado aos tempos de Data Control, ensinando grupos deles a utilizar nosso software, ouvindo deles o mesmo tipo de pergunta e respondendo-lhes com a mesma presteza e didática. Sinto-me realizado por estar sendo capaz de, num país estrangeiro e com todas as implicações intrínsecas a tais circunstâncias, desempenhar meu trabalho com a mesma desenvoltura que teria se estivesse em casa.

Meu (agora) amigo gerente de hardware também é músico, assim como quase todo mundo que trabalha na DLA. Ele, inclusive, é integrante de uma banda de pop-rock alemã chamada Ready 4 The Sun, na qual toca bateria. Estive ouvindo algumas de suas gravações profissionais, lançadas comercialmente em CD há alguns anos, e apaixonei-me pelo trabalho deles. Veja só como são bons ouvindo abaixo a faixa “Be”:

Estar perto de um músico profissional, que toca um gênero de música que aprecio, traz-me grande prazer. Estou incutindo nele a idéia de criar uma nova banda formada pelos músicos da DLA. Ainda não sei se estou sendo levado a sério, mas tenho martelado nessa tecla. Evidentemente não poderá ser uma banda profissional, uma vez que os eventuais integrantes vivem em quatro países diferentes, têm suas próprias vidas e famílias para cuidar e, portanto, não poderão se reunir para ensaiar com a assiduidade necessária para um conjunto profissional, mas poderíamos nos divertir tocando juntos em lugares como o café do Jörg, no sul da França. É uma idéia que me seduz completamente.

A Ready 4 The Sun está se preparando para gravar mais um CD e estou procurando um meio de contribuir de alguma forma com essa produção. Infelizmente não posso oferecer-me como músico, pois não sou profissional (até porque muito provavelmente não iriam querer mais um), mas talvez como fotógrafo, por exemplo, já que tenho aperfeiçoado minha técnica. Ofereci à banda algumas das fotos que tirei deles durante uma apresentação e espero que gostem de alguma delas.

 

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