Os bezerros de ouro modernos na vida pública e como evitá-los

Publicado em 30 de janeiro de 2024 e atualizado em 3 de maio de 2024

O episódio do bezerro de ouro é um dos mais conhecidos do Velho Testamento (ver Êxodo 32).

Quando Moisés subiu ao Monte Sinai para receber de Deus os Dez Mandamentos, o povo de Israel ficou ansioso com a demora de seu retorno. Eles se reuniram ao redor de Aarão e pediram-lhe que fizesse deuses para eles. Aarão então pediu que o povo trouxesse seus objetos de ouro, que foram fundidos para formar um bezerro. O povo começou a adorar este ídolo, com danças, músicas e sacrifícios.

Quando Moisés desceu do monte e viu o que estava acontecendo, ficou furioso. Quebrou as tábuas dos Dez Mandamentos, queimou o bezerro de ouro, moeu-o até virar pó, espalhou o pó na água e fez com que o povo de Israel a bebesse.

Esse episódio é frequentemente citado como um exemplo de idolatria e infidelidade do povo de Israel, apesar dos milagres que havia testemunhado no Egito e durante o Êxodo.

Você ficaria surpreso em saber que hoje o povo se comporta de forma semelhante?

Tal qual o povo de Israel, que queria um ídolo porque estava aflito e incerto sobre o futuro, hoje o povo busca segurança e direção nos atores da vida pública, levando-o a uma idolatria política que o faz ver seu político de estimação como um salvador da pátria e a única solução dos problemas do país.

Essa idolatria impede o povo de obter uma perspectiva equilibrada e crítica sobre seu bezerro. Ele não admite que políticos são humanos e falíveis (e geralmente mentirosos e desonestos) e não entende que a solução para os problemas complexos da sociedade raramente pode ser encontrada em uma única pessoa ou partido.

Bezerros de ouro têm sido levados ao altar da república desde a última virada de século, pelo menos. Em 2022, por exemplo, quando teve chance de se livrar dos dois bezerros de caráter duvidoso que competiam pelo altar, o povo preferiu simplesmente trocar um bezerro por outro.

O fenômeno não é exclusivo do Brasil. Nos Estados Unidos, por exemplo, um bezerro foi colocado no altar em 2016 e, não obstante estar mergulhado num caldeirão fervente de execração pública e encrencas legais, o fanatismo idólatra em seu entorno quer colocá-lo no altar novamente em 2024. Países como Hungria, Polônia e Coréia do Norte também têm seus próprios bezerros.

O Brasil é superior a esses países em vários aspectos. Um deles é que aqui temos dois bezerros em vez de um, significando que o povo é duplamente idólatra. Que orgulho, não?

A coisa fica ainda melhor quando vemos que a dicotomia da justiça dos homens barrou as chances que um dos dois bezerros daqui teria de ser novamente levado ao altar em 2026, significando que ainda restará ao povo um bezerro para idolatrar.

Se esse bezerro que sobrou não existisse, será que o povo voltaria sua idolatraria para um bezerro diferente ou simplesmente deixaria de ser idólatra e passaria a ser mais sensato?

Sei que os governos foram instituídos por Deus, que é necessário que existam e que Deus considera os governantes responsáveis por formular e executar leis em função do bem e da segurança da sociedade (ver D&C 134:1). Nenhum governo pode existir em paz a não ser que tais leis sejam feitas e mantidas invioladas, de modo a garantir a todo indivíduo o livre exercício de consciência, o direito e domínio de propriedade e a proteção da vida (ver D&C 134:2). Todos os governos requerem necessariamente representantes e magistrados civis para executar suas leis e deve-se procurar e apoiar pessoas para administrar a lei com equidade e justiça (ver D&C 134:3).

Agora examine o cenário público do país desde a virada do século. Você acha que algum dos bezerros colocados no altar desde então foi e está sendo capaz de cumprir com suas responsabilidades perante Deus como governante civil? Esses bezerros já pareciam capazes disso antes de serem colocados no altar? Se não, por que foram?

Se é que resta aos idólatras modernos alguma capacidade de raciocinar com equilíbrio e imparcialidade, segue abaixo uma cartilha para orientar sua próxima escolha. Veja se encontra nos parágrafos abaixo algum paralelo com a história recente do país. Que sua próxima escolha seja feita com base nesses princípios e não apenas para saciar sua necessidade de idolatrar alguém.

Cremos que todos os homens têm a responsabilidade de suster e apoiar o governo do lugar em que residem, desde que protegidos em seus direitos inerentes e inalienáveis pelas leis de tal governo; e que o motim e a rebelião são inadequados a todo cidadão assim protegido e devem ser punidos convenientemente; e que todos os governos têm o direito de estabelecer leis que, a seu ver, sejam mais adequadas para assegurar os interesses públicos; ao mesmo tempo, contudo, mantendo sagrada a liberdade de consciência.

Cremos que todo homem deve ser respeitado em sua posição, governantes e magistrados como tais, sendo nomeados para proteção dos inocentes e punição dos culpados; e que todos os homens devem respeito e deferência às leis, visto que, sem elas, a paz e a harmonia seriam suplantadas pela anarquia e pelo terror; as leis humanas foram instituídas com o propósito expresso de regular nossos interesses como indivíduos e nações, entre um homem e outro; e as leis divinas foram dadas pelo céu, para prescrever regras sobre assuntos espirituais, para fé e adoração, devendo o homem dar contas de ambas a seu Criador.

Cremos que governantes, estados e governos têm o direito e a responsabilidade de promulgar leis para a proteção de todos os cidadãos no livre exercício de suas crenças religiosas; mas não cremos terem eles o direito, por justiça, de privar os cidadãos desse privilégio nem de rejeitá-los por suas opiniões, enquanto mostrarem consideração e reverência pelas leis e suas opiniões religiosas não incentivarem motins nem conspirações.

Cremos que a perpetração de um crime deve ser punida de acordo com a natureza do delito; que o homicídio, a traição, o roubo, o furto e a violação da paz geral, em todos os aspectos, devem ser punidos de acordo com sua criminalidade e sua má influência entre os homens, pelas leis do governo sob o qual o delito tiver sido cometido; e para a paz e tranquilidade públicas, todos os homens devem usar sua habilidade para entregar os transgressores das boas leis ao castigo.

Não cremos ser justo misturar influência religiosa com governo civil, o que faz com que uma sociedade religiosa seja favorecida e outra, restrita em seus privilégios espirituais; e os direitos individuais de seus membros, como cidadãos, sejam negados. (D&C 134:5-9, destaques meus)

Sei que sou como a voz que clama no deserto (ver Isaías 40:3), mas fazer o que? Sou um otimista incorrigível. 😉

Em tempo: se você chegou ao fim deste artigo entendendo que estou criticando políticos, peço-lhe gentilmente que o leia novamente, com calma e atenção, palavra por palavra, sem pular parte alguma. Estou fazendo uma crítica, sim, mas não é aos políticos, e sim à atitude de idolatrá-los.

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