Rapaz sortudo, rapaz azarado

Referente a outubro de 2005

Recentemente participei de uma reunião na qual foi contada uma história muito interessante, que tento reproduzir a seguir.

Um certo rapaz havia ganho um potrinho. Cuidou dele com atenção e carinho até que se transformou em um belo e vistoso cavalo adulto. Devido a ser o mais belo cavalo da região, os moradores da localidade diziam entre si: “Mas que rapaz sortudo!”

Após algum tempo, seu cavalo pulou a cerca e fugiu em disparada sem que ninguém conseguisse alcançá-lo ou recuperá-lo depois. Então os moradores passaram a dizer: “Mas que rapaz azarado!”

Pouco tempo depois, o rapaz levanta-se da cama pela manhã e encontra seu cavalo esperando na porta de sua casa. Mas não estava sozinho: tinha trazido com ele um grupo de outros cavalos. Então os moradores passaram a dizer: “Mas que rapaz sortudo!”

Um belo dia, montando seu cavalo, o rapaz escorregou da sela do cavalo, quebrando alguns ossos na queda. Então os moradores passaram a dizer: “Mas que rapaz azarado!”

Enquanto se recuperava de seus ferimentos na cama, veio uma guerra. Os rapazes de sua idade foram convocados a servir seu país. Todos morreram na guerra, menos ele, por estar incapaz de lutar. Então os moradores passaram a dizer: “Mas que rapaz sortudo!”

Não sei se essa história tem continuação, mas a que foi contada na reunião terminou assim.

Tenho o hábito de colocar-me no lugar dos personagens das histórias que ouço, dos filmes que assisto, etc., a fim de tentar imaginar como eu reagiria no lugar desses personagens. Que eu teria pensado ou sentido ao ferir-me caindo do cavalo ou vendo-o fugir de mim? Teria queixado-me de meu infortúnio ou sido humilde e sábio para aguardar as bênçãos subseqüentes?

Esse exercício ajudou-me a enxergar nessa história alguns elementos que podem converter-se em lições de humildade e confiança no Senhor. Aquele que Lhe é fiel não têm porquê temer ou queixar-se de eventuais revezes, pois eles podem na verdade ser a preparação de uma bênção maior — como quando o cavalo retornou trazendo outros consigo — ou a proteção contra um mal — como quando os ferimentos decorrentes da queda do cavalo salvaram-lhe a vida ao dispensá-lo de lutar numa guerra injusta.

A constatação dessa verdade eterna lembra-me das palavras do Élder James E. Talmage:

Somos propensos a contender com a adversidade, às vezes até com veemência e fúria, quando no final ela pode ser a manifestação da sabedoria divina e do cuidado amoroso de nosso Pai, interferindo em nosso conforto temporário em prol de uma bênção permanente. Nas tribulações e sofrimentos da mortalidade, existe um ministério divino que apenas a alma (que está) afastada de Deus não consegue entender. Para muitos, a perda das riquezas tem sido uma bênção, um meio providencial de afastá-los dos confins da auto-indulgência e guiá-los à liberdade, onde ilimitadas oportunidades esperam aqueles que lutam por ela. A decepção, a tristeza e as aflições podem ser a manifestação da bondade sábia do Pai Celestial. (Reproduzido em A Liahona, fevereiro de 2003, pg. 37)

Já citei essas mesmas palavras outras vezes neste diário. Elas me trazem força e esperança em minhas aflições e lhes dão sentido.

Desde que fui chamado conselheiro do bispado de minha ala, percebi uma mudança na maneira como observo certos eventos ao meu redor, como na experiência sobre o primeiro banho de mar de Giancarlo e até a história que acabo de descrever. Parece-me que tem sido mais fácil extrair ensinamentos espirituais desses fatos e contos, como se tivessem o intuito de compôr uma espécie de banco de dados espiritual para proveito e instrução das pessoas que eu vier a entrevistar e aconselhar.

Tenho a impressão de que terei muito mais o que escrever neste diário daqui por diante.

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3 comentários em Rapaz sortudo, rapaz azarado

  1. sebastiao disse:

    eu ri coma historia e depois me emocionei com o testemunho, o espirito do senhor nos faz sentir que do outro lado da tela ha um irmao.
    toda escritura divinamente inspirada é apta para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça. para que o homem de Deus seja perfeito e instruido perfeitamente para toda boa obra.
    obrigado

  2. Flavio M. Pereira disse:

    Encontrei seu artigo agora pesquisando sobre James E. Talmage, adorei, o elder Talmage sempre me fascina pela seu entendimento do salvador e do evangelho. Obrigado.

  3. Djalma Rafael disse:

    Amigo, muito bom seu artigo! James E. Talmage é meu autor favorito

 

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